Desafios para o combate ao capacitismo em questão no Brasil

Enviada em 30/12/2020

Na obra “Ensaio sobre a cegueira”, o escritor José Saramago sinaliza, metaforicamente, uma crítica ao individualismo através de um processo epidemiológico de perda de visão que atinge toda a comunidade. No Brasil, por exemplo, essa incapacidade coletiva de enxergar é vista na indiferença do Estado e de parte da população frente à existência do capacitismo. Diante do exposto, cabe analisar esse preconceito como elemento de exclusão escolar e profissional no Brasil.

Antes de tudo, pontua-se que o Poder Público tem se mostrado negligente ao permitir o capacitismo. Como prova disso, vê-se a omissão das instituições governamentais perante a falha no processo de assistência, visto que falta disponibilizar material didático adaptado aos alunos com deficiência visual, bem como oferecer uma formação continuada aos professores, pautada na inclusão daqueles no ambiente escolar, o que pode prejudicar a consolidação do direito à educação deles. Desse modo, certifica-se que o bem-estar de toda a coletividade não tem sido assegurado, demonstrando a ruptura dos princípios presentes na Constituição Federal de 1988.

Ademais, observa-se que uma parcela da sociedade tem aceitado o capacitismo, o que denota uma banalização do mal. Confirma-se isso pela apatia de alguns indivíduos diante da ausência de fiscalização estatal, uma vez que falta inspecionar a efetivação da lei que prevê a contratação de, no mínimo, duas pessoas com deficiência em empresas com mais de cem funcionários, comprometendo, dessa forma , uma cidadania destas. Constata-se, à vista disso, que a naturalização desse fato corrobora os estudos de Hannah Arendt, pois, segundo a filósofa, o enfraquecimento da capacidade humana de discernir o certo do errado é resultado de um processo de massificação social.

Evidencia-se, portanto, que é preciso combater o capacitismo. Para isso, é necessário que o Poder Executivo promova um maior direcionamento de verbas ao Ministério da Educação, o que pode ser feito por meio da aquisição, nas escolas, de materiais didáticos adaptados ao sistema de escrita braile e da especialização de docentes, visando impedir que a inclusão de alunos com deficiência seja comprometida. Além disso, é fundamental que organizações não governamentais, mediante atuação de veículos midiáticos, promovam campanhas que estimulem a mobilização coletiva para que se exija do Estado o cumprimento efetivo da legislação em vigor, a fim de viabilizar a inserção de profissionais com deficiência no mercado de trabalho. Sendo assim, seria possível restringir a negligência política e social à obra de José Saramago.