Desafios para o combate ao capacitismo em questão no Brasil
Enviada em 02/01/2021
Sob a perspectiva filosófica de Marilena Chauí, a democracia deve ser um sistema com direito igualitário para todos, sem ações que prejudiquem um grupo em prol do outro. Apesar da legitimidade de tal afirmação, no Brasil, observa-se que a prática deturpa a teoria, uma vez que ainda existem entraves a serem superados em relação ao combate ao capacitismo. Nesse âmbito, faz-se necessário analisar as origens acerca do óbice social apresentado: sensação de superioridade e preconceito.
Sob esse viés, é imperativo pontuar que a sensação de superioridade de parte da população colabora com essa problemática. Isso é elucidado pelo antropólogo Francis Galton — conhecido pela “Teoria da Eugenia” —, o qual afirma que o controle social é definido por meio da seleção de aspectos considerados melhores. De acordo com essa perspectiva, o progresso surgiria como resultado lógico do melhoramento da população, e, por conseguinte haveria seres humanos superiores, de acordo com suas características. Nesse contexto, a noção eugênica pode ser percebida na questão do capacitismo no Brasil, cuja base é uma forte discriminação, visto que substancial parcela dos brasileiros considera os deficientes como seres inferiores. Logo, é incoerente que, mesmo sendo uma nação pós moderna, ainda se perpetue a intolerância.
Além disso, é pertinente ressaltar que o preconceito contribui com o capacitismo. Acerca disso, a filósofa alemã Hanna Arendt — em sua obra “Banalidade do Mal” — afirma que a atitude preconceituosa passa a ser feita inconscientemente quando os indivíduos trivializam tal situação, o que pode ser equiparado com a questão da segregação dos indivíduos que apresentam alguma deficiência. Nesse sentido, pode-se constatar que tal afastamento foi, e ainda o é, repassado de uma geração a outra, o que mostra a normalização de tal atitude. Assim, enquanto a rejeição for a regra, os cidadãos serão obrigados a conviver com um dos maiores desafios da sociedade: a marginalização.
Diante do exposto, evidenciam-se os desafios sociais para a resolução desse impasse. Nessa lógica, cabe ao Poder Executivo Federal, aliado às esferas estaduais e às municipais, desenvolver projetos governamentais que informem a população sobre a importância de respeitar todos as indivíduos, por meio de palestras gerenciadas por psicólogos, as quais orientarão o comportamento das pessoas em relação ao capacitismo. Paralelamente, o Ministério da Educação deve levar o tema às escolas públicas e às privadas. Isso deve ocorrer por meio da substituição de parte da carga teórica da Base Nacional Comum Curricular por projetos interdisciplinares que envolvam a relevância da isonomia, para que se desperte o interesse do aluno ao mesmo tempo em que se desenvolve sua consciência cidadã. Assim, tornar-se-á possível a construção de uma sociedade permeada pelos princípios de Marilena Chauí.