Desafios para o combate ao capacitismo em questão no Brasil

Enviada em 19/04/2021

“A primeira condição para transformar a realidade é conhecê-la”. A emblemática frase de Eduardo Galeano justifica perfeitamente o paradoxo do capacitismo, tendo em vista que diversos brasileiros inferiorizam deficientes por virtude da ausência de conhecimento que é lhes concedida. Nesse contexto, faz-se mister, em pleno século XXI, ir de encontro ao capacitismo e, para vencê-lo, é preciso compreender suas causas, que estão ligadas à criação de concepções feita pelo decurso histórico e às formas de exclusão presenciadas no cotidiano em seus aspectos mais subjetivos.

Mormente, convém ressaltar que tal subjugo advém, em muito, do passado. Nesse sentido, o advento desse fato decorre da degradação moral herdada dos séculos passados, nos quais práticas opressoras com deficientes — como submetê-los à exposição para circos e/ou privá-los de direitos civis básicos— eram normativas: substancialmente, já que pessoas “normais” os consideravam inferiores. Assim, é possível afirmar que, ao prorrogar a conjuntura outrora constituída, tem-se o aculturamento da coletividade em enxergar esses indivíduos mais como anomalias que como outros seres humanos, que é humilhante, preconceituoso e ignorante, o que, infelizmente, ainda perdura.

Ademais, a exclusão do cotidiano apresenta parte ativa nesse problema. Isso porque o ser humano, dentro de uma lógica individualista, rebaixa e exclui o que considera supostamente incapaz e desconhece, pois, desse modo, consegue legitimar o fato de não se importar com outras realidades, garante a coletivização de ideias imorais e seletivas, bem como marginaliza outrem. Dentro da temática do capacitismo, esse conceito exemplifica a razão de portadores de deficiência estarem mais expostos à ridicularização e de possuírem menos oportunidades de acesso ao mercado de trabalho, às escolas e à representatividade para mostrar suas capacidades, uma vez que o individualismo endêmico do homem fomenta a percepção negativa e a inferiorização acerca dessa parcela social.

Portanto, hão de ser estabelecidas medidas para transpor o estigma supracitado presente na subjetividade do povo brasileiro. Para tanto, cabe ao Ministério da Educação — área do Estado responsável pela formação cidadã — introduzir, nas escolas em parceria com o corpo docente, a partir do ensino fundamental I, minicursos instrumentais sobre deficiências, com intuito de formar adulto mais conscientes, mais empáticos e menos individualistas. Outrossim, o Estado deve elaborar cotas sociais — que visem ao desenvolvimento do ingresso aos ramos trabalhistas, educacionais, esportivos, entre outros— para deficientes, por meio da verba pública, para que, então, ganhem mais espaços na sociedade e deturpem o capacitismo. Feito isso, como Galeano define, quando há conhecimento, é possível, de fato, transformar a realidade.