Desafios para o combate ao capacitismo em questão no Brasil

Enviada em 28/06/2021

Segundo Friedrich Nietzsche, a sociedade é dualista, ou seja, tende a classificar tudo dentro de dois extremos, considerados opostos. Nesse viés, construíram-se visões capacitistas segundo as quais pessoas portadoras de deficiências não são enxergadas como seres humanos comuns, já que não se enquadram dentro dos padrões estabelecidos como “normais”. Por conseguinte, são alimentadas ideias discriminatórias que marginalizam essa parcela da população, sendo as teorias eugenistas do passado e o fomento a uma visão romantizada sobre histórias de superação os principais desafios para o combate ao capacitismo no Brasil.

Sob essa ótica, é necessário ressaltar, primeiramente, que, desde a Grécia Antiga, crianças que não se enquadravam dentro dos padrões “adequados” eram assassinadas. Posteriormente, com a Teoria Evolucionista de Darwin, surgiram ideias eugenistas, baseadas no mesmo princípio grego, que defendiam a esterilização de indivíduos “anormais”, visando garantir que essa “fraqueza” não se perpetuasse para as próximas gerações. Como reflexo desse preconceito enraizado, o capacitismo é manifestado até hoje e, na maioria das vezes, através de uma violência simbólica, representada pela exclusão em escolas, no mercado de trabalho e em espaços de convivência, onde os deficientes são vistos sob um olhar de pena e de inferioridade, o que dificulta o combate a tal forma de discriminação.

Além disso, o fomento a uma visão romantizada sobre histórias de superação enquadra-se como um outro empecilho à luta contra o capacitismo no Brasil. Em filmes, novelas e até noticiários, pessoas com impedimentos físicos, sensoriais ou intelectuais são retratadas como se suas deficiências fossem algo a ser superado a partir de esforços individuais, ignorando todas barreiras que envolvem o tema. De forma análoga, a nigeriana Chimamanda Adichie, em seu livro “O perigo da história única”, critica esse hábito de estabelecer uma única narrativa possível, padronizando pessoas e abrindo espaços para a alimentação de preconceitos que encontrarão ainda mais desafios para serem superados.

Portanto, urge que o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, órgão responsável por formular políticas de inclusão, promova campanhas de conscientização, em parceria com as escolas, através da realização de ações afirmativas, como palestras informativas, por exemplo, a fim de que o preconceito enraizado e a visão romantizada da deficiência sejam combatidos e, assim, as vítimas do capacitismo tenham o respeito garantido. Ademais, é necessário que a mídia atue com programas inclusivos que representem essa parcela da população de maneira correta. Feito isso, a característica dualista da sociedade, descrita por Nietzsche, não servirá mais para exemplificar a separação de pessoas de pessoas de acordo com suas particularidades.