Desafios para o combate ao capacitismo em questão no Brasil
Enviada em 18/08/2022
“Por que coxa,se bonita?Por que bonita,se coxa?".Essa é uma frase proclamada pelo defunto-autor da clássica obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”,grafada pelas letras do escritor Machado de Assis ,a qual apresenta um forte teor preconceituoso em relação à figura da moça deficiente Eugênia. Ao tomar como base a perspectiva literária do século XIX,nota-se que o desrespeito em relação às pessoas com deficiência é recorrente,na atualidade brasileira,e amplia ainda mais,infelizmente,o capacitismo na sociedade.A partir desse contexto,faz-se necessário discutir acerca das principais motivações para essa opressão social.
Nesse sentido,é válido destacar que o persistente capacitismo é uma questão relacionada ao histórico de preconceito do Brasil.Isso acontece porque,ao longo da formação do Estado brasileiro,desde a Era Colonial,houve a hierarquização das capacidades corporais e intelectuais humanas e,consequentemente,a exclusão de indivíduos,inicialmente indígenas,que não correspondessem a tais critérios. Dessa forma, a deficiência foi sendo considerada um marcador sociocultural da diferença, o qual ainda despreza e oprime tais pessoas com necessidades especiais. Assim, as atitudes culturais tais como as do personagem machadiano,no século XIX,até as perpetuadas atualmente,nas escolas e nas ruas,colocam os deficientes como seres sub-humanos(aspecto estudado também pelo sociólogo Boaventura S.Santos).
Além disso, a escassez de medidas estatais efetivas perpetua o capacitismo no Brasil. Tal fato acontece,pois,apesar de existir o Estatuto da Pessoa com Deficiência,percebe-se,como bem afirmado pelo historiador José Murilo de Carvalho,que a efetividade prática das leis é escassa,o que conserva o preconceito com essas pessoas e o sentimento de não pertencimento ao tecido social brasileiro. Desse modo, ao desproporcionar a esses indivíduos o acesso a boas calçadas, a boas estruturas de transportes públicos e a vias urbanas adaptadas, por exemplo, observa-se um grande descaso com os deficientes, que já são,de acordo com dados do IBGE 2019, mais de 45 milhões de indivíduos no país.