Desafios para o tratamento de dependentes químicos no Brasil
Enviada em 27/10/2018
É lícito afirmar que toda a humanidade, com seu complexo sistema cognitivo, sempre viveu um estado de vazio existencial e angústia ao menos latente, de que procura fugir das mais diversas formas. Um dos meios mais utilizados são as alterações diretas na cognição “per se”, com o uso de drogas psicoativas. Ao longo do século XX, quase todas as drogas psicoativas convencionais foram declaradas ilícitas, exceto, incoerentemente, o álcool e o cigarro. Entretanto, o consumo continuou em franco crescimento e, no Brasil, devido ao conservadorismo, corrupção e inépcia do Estado e sociedade brasileiras, leva a grande descalabro social que carece de imediata reflexão por todos.
Não existe de fato uma política pública de drogas no Brasil, pois as ações são descoordenadas e desconectadas da realidade. Cada um dos diferentes níveis de poder em geral age de forma independente e sem continuidade entre os sucessivos governos e é grande o preconceito em relação aos usuários, ignorando-se o fato de que alguns cidadãos, por questões diversas (sociais, familiares, psicológicas, etc.), são mais predispostos ao vício e todas as suas inúmeras consequências adversas.
Com isso, não existem planos de tratamento bem estruturados, personalizados e multidimensionais, que abordem holisticamente a vida dos dependentes e suas famílias. O maior foco da sociedade é na violência ostensiva aos pequenos traficantes ou usuários meliantes, com inúmeras mortes e prisões desnecessárias, enquanto os grandes chefes do crime continuam politicamente poderosos. Em suma, na “política” de drogas brasileira, gasta-se muito mais em segurança que em saúde, mas a violência do tráfico e da dependência extrema e o sofrimento de cada um dos dependentes, silencioso ou agonizante, só aumentam.
Uma massiva companha de conscientização da sociedade sobre a problemática, para expurgar os preconceitos e qualificar a discussão, possivelmente até em um plebiscito sobre a liberação de algumas drogas, é de importância primordial para o momento. Para tanto, agentes como o Poder Público, ONG’s, associações filantrópicas e mídia poderiam se valer de peças publicitárias, palestras e consultas populares em rádios, TV, espaços públicos e, principalmente, redes socais e demais foros da Internet. Simultaneamente, é urgente a instituição governamental de um tratamento moderno para os dependentes químicos, que envolva desde internações compulsórias e uso de medicamentos até atendimentos psicológicos e atividades artísticas e profissionalizantes, para que o indivíduo possa tomar as rédeas de toda sua vida e se dedicar a propósitos autênticos e concretos que afastem ao máximo o estado de vazio existencial humano.