Desafios para o tratamento de dependentes químicos no Brasil

Enviada em 29/03/2019

Sobrevivência em uma subvida

No carnaval carioca, o bloco de rua “Alegria sem Ressaca” é formado por dependentes químicos em recuperação que testemunham a possibilidade de festejar sem drogas. Cotidianamente, entretanto, uma legião de usuários de álcool e substâncias ilícitas indicam um dos maiores desafios para a saúde pública no Brasil, o que requer ações mais efetivas para tratar esse problema.

Em primeiro lugar, a dependência causada pela droga gera um ciclo de retroalimentação social, o que, por si só, constitui-se num grande entrave para o tratamento. Nesse sentido, o ativo psicotrópico age nas sinapses cerebrais, de modo a inibir a recaptação de dopamina, cujo efeito prolonga a sensação de euforia e bem-estar, mas gera crises na abstinência. Assim, perante tal situação conflitante - sobretudo, quando envolve dívidas com o tráfico - , alguns familiares determinam-se a pagar pelo vício, o qual, muitas vezes, não é admitido pelo usuário. Consequentemente, a reabilitação é rejeitada e esse ciclo de dependência química permanece ao envolver outras pessoas.

De outra parte, a forma como o Estado Brasileiro, em suas leis e políticas públicas, lida com o adicto também contribui para esse cenário caótico. Dessa maneira, se por um lado a Lei de Drogas de 2006 não estabelece uma quantidade máxima considerada para consumo, deixando a critério de cada juiz, por outro, o governo vai de encontro às discussões mais recentes sobre tratamento. Por esse viés, está investindo em comunidades terapêuticas privadas que, segundo a psicóloga Jereuda Guerra do Conselho Federal de Psicologia (CFP), baseiam-se em prescrições religiosas sem fundamentação científica sob o controverso modelo manicomial, refutado pela reforma psiquiátrica. Além disso, contraria o princípio de que nenhum tratamento é bom para todos, do National Institute on Drug Abuse, enquanto esquiva-se da reabilitação multidisciplinar oferecida nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) do SUS.

Cabe, portanto, reavaliações e mudanças nos esforços concentrados na recuperação de adictos. Dessa forma, o Ministério da Saúde, por meio de todas as mídias disponíveis, como televisão e redes sociais, deve promover campanhas de modo a estimular a procura por grupos de apoio, tanto para usuário quanto familiares. Alternativamente, também poderia investir em atividades lúdicas terapêuticas nos CAPs, como dança e artesanato, a fim de desenvolver o raciocínio, memória e coordenação motora, capacidades tão debilitadas por psicotrópicos. Seguindo esses caminhos, será possível garantir mais qualidade e eficiência no projeto de recuperação de indivíduos que sobrevivem nesta subvida.