Desafios para o tratamento de dependentes químicos no Brasil

Enviada em 01/07/2019

Por muito tempo, foi considerado o grande galã das principais telenovelas exibidas por uma das maiores emissoras do país. Hoje, em estado decadente, sofre com piadas infelizes e difamações. O caso do ator Fábio Assunção nos traz um ponto importante sobre os desafios para a recuperação de dependentes químicos no Brasil: a sociedade ainda não é capaz de encarar com maturidade uma doença que, segundo a ONU, matou mais de 500 mil pessoas no mundo em 2017. Para mudar esse quadro, a discussão precisa se expandir para todos os setores sociais.

É necessário considerar, antes de tudo, a marginalização que os usuários de drogas sofrem por falta de informação. O Mito da Caverna, do filósofo grego Platão, retrata o perigo da ignorância do senso comum, a qual ele considera o maior mal da sociedade. Nesse sentido, longe dos dependentes serem tratados como enfermos, são julgados como pessoas sem caráter por falta de conhecimento da maioria que não encara o problema como doença. Por conseguinte, são segregados pela comunidade e submetidos a condições subumanas em vez de receberem tratamento adequado com a ajuda de amigos e familiares. Isso só repele qualquer iniciativa da vítima em combater a adicção.

Além disso, essa perspectiva destoante afeta a criação de políticas públicas eficientes, onde a coerção aparece como uma medida paliativa de amenizar o problema. Para o filósofo francês Michel Foucault, a prisão é uma forma de controle do ser humano, onde o objetivo é torná-lo mais dócil. Dessa forma, o poder estatal tenta, através da pena, punir o dependente químico pela posse de pequenas quantidades de entorpecentes, ao invés de concentrar seus esforços unicamente no tráfico. Em consequência disso, o usuário é criminalizado e jogado no sistema carcerário, onde não conseguirá desenvolver qualquer convívio social produtivo, terá acesso abundante às drogas no presídio e, em muitos casos, entrará para o crime por influência do seu novo círculo de amizades.

Portanto, o Estado, por meio do Congresso Nacional, deve descriminalizar substâncias ilícitas em quantidade para consumo pessoal, evitando que o doente seja jogado às margens da sociedade e se distancie mais ainda da recuperação. Ademais, o Ministério da Saúde deve conduzir campanhas nacionais, com participação de famosos reabilitados ou em tratamento, para conscientização sobre o que realmente é a dependência química. Isso diminuirá o preconceito existente quanto à situação dos adictos no Brasil e servirá de incentivo para procurarem ajuda profissional. Só assim, a sociedade mudará sua postura e o país rumará, gradualmente, à solução do problema que o assola por tanto tempo.