Desafios para o tratamento de dependentes químicos no Brasil
Enviada em 30/07/2019
Segundo dados do Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos, cerca de 8 milhões de pessoas são dependentes de drogas no Brasil. Esse dado alarmante reflete adversos desafios para o tratamento dos toxicomaníacos em decorrência, sobretudo, da ineficiência de políticas governamentais quanto à essa questão e da negligência civil no que tange à inserção dessas pessoas. Logo, urgem ações engajadas dos agentes adequados com o escopo de superar tais impasses.
Inicialmente, ressalta-se que no país historicamente o uso de drogas foi tratado mais como uma questão policial do que como um problema de saúde pública, onde são recorrentes políticas ineficientes de combate às drogas aplicadas pontualmente em ambientes marginalizados, como nas favelas. Essa situação teve como desdobramento a recente aprovação da Lei n° 13.840, a qual autoriza a internação compulsória dos dependentes químicos. Contudo, verifica-se que tal determinação é falha, na medida em que é insatisfatória a qualidade do serviço médico público e dos equipamentos nas poucas clínicas existentes, bem como a disponibilidade de uma tratamento personalizado e humanizado aos viciados. Com isso, nota-se o despreparo estrutural do país para aplicação efetiva da legislação.
Outrossim, consoante o filósofo romano Sêneca, " é parte da cura o desejo de ser curado “, ou seja, uma abordagem excludente e repressiva como comumente é tratado o dependente químico, em detrimento da participação e do consentimento dessa pessoa, não é eficaz. Nessa perspectiva, observa-se que essa conjuntura é potencializada pelo estigma e negligência social para com os adictos em maconha ou cocaína, uma vez que drogas como álcool e cigarro foram naturalizadas no país. Em face disso, constrói-se uma deturpada visão de que os usuários de drogas são criminosos em potencial, o que corrobora não só a inserção desses indivíduos no convívio comunitário, mas também inviabiliza a saída daqueles que realmente querem abandonar o vício.
Destarte, é essencial superar os desafios que envolvem a temática em questão. Para tanto, é impreterível que o Ministério da Saúde amplie os projetos de tratamento dos usuários de drogas, por meio da redistribuição de verbas, as quais aperfeiçoem o serviço médico-hospitalar público, bem como a metodologia utilizada na reabilitação dessas pessoas, com o uso de arteterapia, por exemplo, a fim de propiciar uma abordagem mais humana, não compulsória e não policial para os adictos. Concomitantemente, é imprescindível que a comunidade, seguindo o pensamento de Sêneca, esteja disposta a colaborar com a reeducação e a reinserção do usuário de droga no convívio cotidiano. Talvez assim, sanar-se-á os impasses no tratamento dos dependentes químicos no país.