Desafios para o tratamento de dependentes químicos no Brasil
Enviada em 11/09/2019
No romance fundador do gênero Cyberpunk, “Neuromancer”, William Gibson narra uma prosa urbana sem censura, onde o uso de droga e alucinógenos aparecem constantemente na climatização do enredo, além de trazer questionamentos quanto à invisibilidade social dos dependentes químicos. Analogamente, a realidade brasileira não é muito diferente, visto que inúmeros cidadãos são excluídos do direito à cidadania simplesmente por sua condição. Nesse sentido, analisa-se que essa problemática é sustentada, sobretudo, pela insuficiência das políticas públicas e pela limitada empatia humana.
Em primeira análise, é possível verificar que os investimentos governamentais referentes ao abuso de substâncias químicas têm na punição uma forma de solucionar o problema. Entretanto, tal preferência acarreta a insuficiência de verbas destinadas à esfera do tratamento, dificultando tanto os aspectos quantitativos, quanto os qualitativos. Prova disso foi a suspensão, em 2015, do programa gratuito, gratuito de prevenção ao uso de álcool e drogas do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, por falta de recursos. Com isso, essa parcela enfrenta obstáculos para mitigar esse quadro e, assim, o corpo social não funciona harmonicamente, consoante o sociólogo francês Émile Durkheim.
Ademais, convém ressaltar que o mundo Pós-Moderno já não incentiva o sentimento altruísta em sociedade. Conforme o pensamento do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a responsabilidade em relação ao outro, como comportamento moral, surge da condição de proximidade. Todavia, a maneira como o corpo social trata os dependentes químicos inviabiliza a construção desse sentimento, tendo em vista a insensibilidade a qual essa parcela é submetida. Nesse viés, num contexto, em que são culpabilizados não só pela própria condição, mas ainda por toda sorte de mazelas urbanas como a criminalidade, criam-se estigmas pela sociedade civil, o que acaba não só por os marginalizar, mas ainda fere o princípio da dignidade humana.
Considerando-se os aspectos mencionados, é dever do Estado, em parceria com o Ministério da Saúde, aumentar a oferta de vagas para profissionais especializados na área, no intuito de aperfeiçoar diagnósticos e oferecer tratamentos gratuitos de qualidade aos cidadãos de toda país. Com isso, é fundamental que a Receita Federal utilize uma parcela maior dos impostos arrecadados para a construção e manutenção de clínicas de reabilitação com o acompanhamento de psicólogos e psiquiatras que ofereçam apoio e conforto aos pacientes. Por fim, cabe à mídia, como formadora de opinião, promover campanhas em redes sociais e canais televisivos abertos, para que despertem a sensibilidade social acerca dessa população, a fim de combater preconceitos e propagar valores como respeito e empatia.