Desafios para o tratamento de dependentes químicos no Brasil

Enviada em 23/10/2019

Para Sartre, filósofo existencialista, o homem constrói os significados de sua vida, seus objetivos, metas, valores, sua visão de mundo e sentido. Ainda, o indivíduo é o único responsável pelas ações praticadas, atos e escolhas, criador de uma existência autêntica. Essa visão, embora correta, não inclui a hodierna dependência química, a qual inibe, muitas vezes, o potencial de ação benéfica individual, posto que esse quadro caótico interfere na consciência pessoal e, portanto, necessita de ajuda externa.

A priori, é imperioso destacar que os desafios para o tratamento de dependentes químicos são diversos e, para que haja êxito no tratamento, devem ser analisados individualmente, de modo personalizado. Posto isso, zelar por adictos requer, ainda, acompanhamentos ao longo prazo, pois o vício, definido pela literatura médica como a incapacidade tanto psicológica quanto fisiológica de parar com o consumo químico, ilustra uma dependência crônica. Desse modo, a intervenção para com o cuidado com o viciado necessita englobar não só equipes qualificadas, como médicos, psicólogos e enfermeiros, como também auxiliar um planejamento familiar que agregue conforto ao paciente de maneira longínqua.

Em segunda análise, vale destacar que o consumo de drogas, de forma geral, potencializa a permanência do estado de dependência, pois gera um ambiente provocativo para o consumidor. De acordo pesquisa realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), mais da metade da população brasileira, de 12 a 65 anos, já consumiu bebida alcoólica. Diante disso, cenários de exclusão, violência e são maximizados, porque a droga altera a percepção sensorial e a cognição, o que maximiza a procura por outras formas de alucinação sintética, tanto para integração social quanto para formas de refúgio, e, por sua vez, dificulta o tratamento de drogados como, também, incentiva novos usuários. Em consoante com o pensador Jurgen Habermas, conhecido por sua ‘‘ética da discussão’’, o diálogo em si é mais importante do que o convencimento do interlocutor. Dessa maneira, a interlocução possui papel fundamental para com a reversão dessa problemática.

Depreende-se, portanto, a necessidade de se tratar os dependentes químicos no Brasil. Para tanto, o Ministério da Saúde, em conjunto com parcerias público-privado, deve criar centros de atendimento que promovam tratamentos os quais agreguem não só medicamentos auxiliadores mas também atividades lúdicas que possam entreter o indivíduo, por meio de aulas de pintura, dança e teatro, e proporcionar alternativas para a invenção criativa, bem como formas de trabalho comunitário. Ademais, o Ministério da Educação deve, ainda, esclarecer aos jovens, por meio de aulas multidisciplinares, quanto aos perigos da droga e dependência química. Quiçá, assim, a definição de Sartre será para todos.