Desafios para o tratamento de dependentes químicos no Brasil
Enviada em 07/04/2020
No livro Incidente em Antares, Érico Veríssimo retrata a sociedade brasileira dos séculos XIX e XX por intermédio de uma alegoria crítica. Nesse sentido, o incidente a que alude o título se dá quando sete defuntos retornam à vida e, livres das amarras sociais, passam a revelar a podridão moral da sociedade. Certamente, se esses defuntos pudessem ultrapassar as fronteiras da ficção para a realidade hodierna, teriam como principal alvo de seu parecer a situação dos dependentes químicos no Brasil, pois estes representam um subproduto de políticas públicas cruéis. Nesse contexto, os cidadãos mais pobres vivem no limiar da sociedade e, não raro, recorrem aos vícios como porta de fuga da angustiante conjuntura a que estão sujeitos. Assim, uma vez dependentes, perdem longos anos de sua vida na busca pela recuperação, pois o país não fornece meios eficientes para ajudá-los nessa lida.
Segundo levantamento do IBGE, em 2016 cerca de 800 mil cidadãos recebiam mais de R$27 mil por mês, enquanto mais de 44 milhões recebiam um salário médio de R$747. Em primeira instância, tais dados parecem indicar algo a que os brasileiros talvez já tenham se acostumado: vivemos em um país desigual. Entretanto, os impactos de tamanha desigualdade pode ter proporções avassaladoras, pois a exclusão social e os males gerados pela pobreza tende a desembocar em perda de auto-estima, crises psicológicas e conflitos familiares - cenário ideal para a busca por compensações imediatas que amenizem a infelicidade sentida, como o álcool e as drogas sintéticas.
Dessa maneira, a conjuntura explicitada favorece a formação de um contingente de cidadãos viciados e miseráveis que, sem outras alternativas, dependem do Estado para sair dessa situação deplorável. Nesse escopo, o governo brasileiro oferece casas de reabilitação para dependentes químicos, porém, os métodos utilizados deveriam ser mais eficazes. Isso porque, embora haja acompanhamento psicológico nessas instituições e o propiciamento da necessária abstinência, os programas de recuperação não focam na substituição do vício por algo que faça os dependentes sentirem-se em harmonia com a própria vida. Por conta disso, eles até se recuperam, mas tendem a recaídas quando a infelicidade torna a assomar-lhes o peito.
Dessarte, é crucial que os ex-viciados encontrem mecanismos que os façam sentirem-se felizes e no controle de si mesmos. Com esse objetivo, o Ministério da Saúde deve criar um programa de recuperação em que os dependentes possam desenvolver atividades criativas (como a pintura, a escrita, a dança e a música), por intermédio de oficinas que contem com a participação de profissionais da área e os materiais necessários ao projeto proposto. Afinal, a expressão criativa é a melhor maneira de propiciar ao ser humano a sensação de poder sobre a própria vida, equilíbrio e realização pessoal.