Desafios para o tratamento de dependentes químicos no Brasil

Enviada em 12/11/2020

O seriado “O gambito da rainha” narra a história de Beth, uma jovem que, durante a infância, desenvolve dependência de tranquilizantes e, posteriormente, encontra dificuldades para vencer esse vício. Fora da ficção, a recuperação de dependentes químicos encara obstáculos no Brasil, fato que impacta o indivíduo e seu círculo social. Diante desse cenário, depreende-se que o tratamento tem como empecilhos a abordagem ineficaz realizada em centros de reabilitação e o reduzido conhecimento sobre o apoio fornecido à família do usuário.

Em primeira análise, percebe-se que a técnica utilizada em centros de auxilio, como a desintoxicação isolada, é ineficaz e possibilita retorno da doença. Nesse sentido, até os anos 80, o vício em drogas era considerado irreversível, o que reduzia a capacidade de recuperação e foi responsável por estabelecer abordagens que não envolviam o estímulo à interação ou à coordenação motora, habilidades atrofiadas pelo uso prolongado de substâncias viciantes. Nesse aspecto, segundo estudo do Conselho Regional de Medicina de São Paulo, a internação é uma fração mínima da reabilitação, que alcança seus melhores resultados com a terapia individualizada. Assim, a dependência química, que age de forma singular em cada pessoa, deve ser tratada, simultaneamente, com acompanhamento psicológico, atividade cognitiva e uso de medicação, para um tratamento eficaz.

Associado a isso, analisa-se que o núcleo familiar do dependente requer auxílio, uma vez que é prejudicado, a partir do seu envolvimento indireto com as drogas. Nesse aspecto, a internação involuntária, prevista na Constituição Federal, torna a família responsável pela decisão de buscar assistência ao membro afetado, o que causa desestabilização desse núcleo. Anexo a isso, uma vez recuperado, o indivíduo precisa de um ambiente que o acolha e não o induza à intoxicação, o que torna fundamental a divulgação de centros terapêuticos direcionados aos familiares. Nessa conjuntura, o círculo social do usuário necessita de acompanhamento psicológico, visto que, o vício, ao influenciar a capacidade cognitiva e motora, solicita o preparo emocional para a efetivação do tratamento.

Portanto, infere-se que o tratamento de dependentes de drogas apresenta impasses a serem solucionados. Desse modo, o Ministério da Saúde deve fiscalizar a atuação de centros de reabilitação em território nacional, por meio de visitas anuais aos postos de apoio, para checar a abordagem utilizada, a fim de que técnicas abusivas não sejam praticadas e a recuperação seja garantida. Além disso, é preciso que a mídia promova a divulgação de centros de terapia voltados às famílias dos usuários, por meio de informativos publicados nos canais televisivos, para o estabelecimento de um melhor cenário de recuperação.