Desafios para o tratamento de dependentes químicos no Brasil
Enviada em 12/01/2021
A obra cinematográfica “Boa Sorte”, produzida pela Conspiração Filmes, explicita as dificuldades no tratamento de adictos em casas de reabilitação, ao passo que encena constantes fugas e contrabandos dentro das clínicas. Analogamente, longe das telas, o sucesso na internação de dependentes ilícitos possui enormes entraves, principalmente no que tange à vontade individual e à assistência oferecida. Nesse sentido, seja pelo escasso debate social acerca dos narcóticos ou pela abordagem errônea das clínicas terapêuticas, o suporte ofertado aos usuários cunha-se incipiente e, por isso, requer cuidados.
Previamente, é relevante salientar pré-conceito social acerca com dependentes químicos. À medida que usuários são constantemente culpabilizados pelo vício e afastados da sociedade, a busca por ajuda no início do descontrole é dificultada, principalmente pelo receio de julgamentos e internações. Assim, visitas às reuniões dos narcóticos anônimos, por exemplo, são procrastinadas, sendo a busca por tratamentos apenas realizadas em estágios alarmantes, como a overdose. Prova disso são os dados do Ministério da Saúde, que revelam a ocorrência de 53.530 internações por uso de drogas no ano de 2015 - número que poderia ser amenizado em caso de acompanhamento prévio. Segundo a economista Tereza Campello, “a informação é a melhor arma para romper com o preconceito”. Desse modo, instruir os civis sobre a patologização do consumo de substâncias ilícitas é crucial.
Ademais, a terceirização dos tratamentos prejudica a eficácia dos suportes a longo prazo. Conforme o Sistema Único de Saúde foi criado, no século XX, a responsabilidade pelo cuidado de enfermidades - antes assumidos pelas “Santas Casas” católicas - passou a ser do Estado. Entretanto, as contratações públicas de empresas religiosas para o suporte de dependentes - como o explicitado pela revista O Capital, que revela 70% das comunidades terapêuticas nacionais serem de igrejas - põe em dúvida a efetividade de tais instituições, visto que nem todos os pacientes são cristãos e desconhece-se a metodologia de reabilitação. De acordo com o racionalista Descartes, o método científico é o caminho mais seguro para a solução de problemas. Logo, inserir a protagonização biomédica faz-se essencial.
Portanto, ações são indispensáveis no objetivo romper com os desafios para o tratamento de adictos. Sob essa ótica, a criação de propagandas que discorram sobre o diagnóstico médico da dependência química, por meio de parcerias entre o Poder Executivo Federal e empresas televisivas, é essencial no intuito de romper com o preconceito. Para isso, subsídios a corporações midiáticas poderiam ser ofertados. Outrossim, instituir a obrigatoriedade de toda casa de reabilitação possuir um psiquiatra e um psicólogo, por meio de uma ementa legislativa feita pelo Congresso Nacional, é mister a fim de aumentar a efetividade do suporte. Assim, casos como os de “Boa Sorte” não serão comuns no Brasil.