Desafios para o tratamento de dependentes químicos no Brasil
Enviada em 15/11/2021
Manoel de Barros, grande poeta pós-modernista, desenvolveu em suas obras uma “teologia do traste”, cuja principal característica reside em dar valor às situações frequentemente esquecidas ou ignoradas. Seguindo a lógica barrosiana, faz-se preciso discutir sobre o tratamento de dependentes químicos, ainda que seja um processo desafiador. Nesse sentido, com o intuito de mitigar os males relativos a essa temática, é importante analisar a negligência estatal e a romantização do uso de drogas na sociedade brasileira.
A princípio, é necessário destacar a forma como parte do Estado lida com os tratamentos de saúde no Brasil. Isso porque, como afirmou Gilberto Dimenstein, em sua obra “Cidadão de Papel”, a legislação do país é ineficaz, visto que, embora aparente ser completa na teoria, não se concretiza na prática em todas as situações. Prova disso é a escassez de políticas públicas satisfatórias voltadas para a aplicação do artigo 6º da Constituição Cidadã, que garante, entre tantos direitos, a saúde. Tal fator é perceptível devido ao pouco espaço destinado ao tratamento nos hospitais e clínicas, além da pequena campanha de conscientização sobre os cuidados a serem tomados com adictos químicos. Assim, infere-se que nem mesmo o princípio jurídico foi capaz de garantir a recuperação de usuários de drogas e álcool.
Ademais, é igualmente preciso apontar a representação do uso de substâncias psicóticas nas mídias como outro desafio da problemática. Nesse sentido, a partir do conceito de Normalização, Michel Foucault definiu que há na sociedade a repetição de comportamentos sem a devida reflexão crítica dessa conduta. Sendo assim, a constante visibilidade positiva dada para o uso social de estimulantes químicos por meio das redes sociais é subproduto do desconhecimento dos males causados pelos vícios. Dessa maneira, tratar os pacientes torna-se um problema coletivo, pois as drogas recreativas nos círculos sociais influenciam os indivíduos em processo de recuperação e dificultam a manutenção de uma vida limpa.
Torna-se evidente, portanto, a necessidade de reverter esse quadro no cenário brasileiro. Sob esta óptica, urge que o Ministério da Saúde garanta melhor qualidade nas clínicas de internação, por meio de psiquiatras e psicólogos especializados em recuperação de dependentes químicos, com atividades ao ar livre e o ensinamento de como se desvincular das substâncias para o tratamento correto, a fim de assegurar que os internos sejam tratados da forma correta e não voltem aos vícios anteriores. Espera-se, assim, que a ineficácia da legislação citada por Gilberto Dimenstein permaneça apenas em sua obra.