Desafios para promover o parto humanizado no Brasil
Enviada em 06/10/2020
Na série canadense “The Handmaid’s Tale”, é narrada a distopia de Gilead, na qual as poucas mulheres férteis restantes - chamadas Aias - são obrigadas a engravidar dos homens ricos da localidade. Nesse sentido, em um dos seus episódios, a obra retrata a internação de uma Aia grávida, na qual é submetida a diversos procedimentos invasivos e, assim, é impedida de realizar seu parto natural. Fora da ficção, é fato que a realidade social brasileira pode ser relacionada à série, uma vez que o parto humanizado é constantemente negligenciado, o que figura um nocivo desafio que deve ser enfrentado de forma mais organizada. Nesse preocupante contexto, é preciso compreender como o machismo estrutural contribui para a persistência dessa problemática e acarreta, consequentemente, a banalização do mal causado pelas cesarianas desnecessárias.
Em primeiro lugar, o machismo estrutural é uma questão crucial ao analisar o impasse. Nessa lógica, de acordo com a socióloga Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher”, o que evidencia o papel de submissão do sexo feminino perante a sociedade. Com efeito, tal conjuntura machista possui influência, até mesmo, no momento do parto, visto que muitos médicos não consideram as opiniões femininas por enxergá-las como “inferiores”. Assim, o machismo corrobora a ocorrência de cesarianas dispensáveis e de procedimentos extremamente invasivos, sem o consentimento das gestantes. Faz-se imprescindível, portanto, a dissolução dessa conjuntura que, assim como em “The Handmaid’s Tale”, colabora para a desumanização do parto.
Por conseguinte, diversas cesarianas desnecessárias ocorrem diariamente, o que gera danos à saúde dos bebês. Acerca disso, é pertinente trazer o conceito de “banalidade do mal”, da filósofa Hannah Arendt, no qual afirma que quando uma atitute agressiva ocorre constantemente, as pessoas param de vê-la como errada. Dessa forma, parte da sociedade se acostumou com as intervenções cirúrgicas durante o parto, naturalizando-as como “melhores”. Contudo, quando tais procedimentos ocorrem arbitrariamente, múltiplas são as sequelas para a saúde física e respiratória do recém-nascido, as quais poderiam ser evitadas com a promoção de um parto humanizado.
Em suma, é mister que o Governo tome providências para alterar o alarmante quadro atual. Nesse viés, o Estado e o Ministério Público devem criar um projeto de lei que será entregue à Câmara dos Deputados, com o objetivo de aumentar os investimentos no setor da saúde. Isso deve ocorrer por meio de parcerias com capitais privados para que mais médicos sejam contratados e, assim, mais gestantes tenham acesso a uma assistência de qualidade durante o parto humanizado. Diante disso, espera-se que a realidade brasileira se afaste da realidade de Gilead.