Desafios para promover o parto humanizado no Brasil
Enviada em 15/10/2020
Em 2010, a Fundação Perseu Abramo divulgou um estudo que mostra como está a violência obstétrica no Brasil: uma em cada quatro mulheres já foram vítimas desse fenômeno. Por conseguinte, esse dado demonstra como o momento do nascimento sofreu um processo de perda da sua importância emocional em prol de uma visão técnica e apática. Sob tal ótica, a falta do parto humanizado prejudica gravemente os direitos e bem-estar da mãe, mesmo assim ainda há desafios para a sua plena efetivação, como a ineficiência do Estado e o despreparo dos profissionais de saúde.
Inicialmente, a precariedade do Sistema Único de Saúde (SUS) colabora para a automatização do parto. De acordo com o Ministério da Saúde, em 2015, 55% dos nascimentos aconteceram por cesáreas. Diante disso, esse número elevado mostra que há a utilização de processos invasivos na parturiente sem que haja a real necessidade, porém apenas por serem capazes de gerar uma maior facilidade e velocidade para os médicos e enfermeiros. Nesse sentido, a insuficiência de investimentos do poder público reduz o número de profissionais atuantes e de salas disponíveis, o que causa uma sobrecarga na demanda e, consequentemente, a busca por um processo mais prático para o obstetra, porém que costuma não respeitar os direitos e desejos da mãe.
Outrossim, a visão apenas objetiva da gestação pelos agentes de saúde retira a humanidade desse processo. Conforme consta no juramento de Hipócrates, comumente realizado no fim da graduação de medicina, a função desse profissional é ajudar o paciente e nunca causar-lhe mal. Todavia, o que ocorre na realidade brasileira distancia-se do plano teórico, porquanto o ensino ministrado pela cursos de saúde foca mais na parte científica de como funciona a fisiologia dos indivíduos, mas negligencia a perspectiva mais afetiva, que vê o outro como um ser dotado de emoções e vontades. Dessarte, a parturiente passa a ser vista como um objeto de trabalho, o que causa a negligenciação da sua opinião e a imposição do método do médico, o que caracteriza a violência obstétrica.
É mister, portanto, tomar medidas que promovam uma maior participação das mulheres nas escolhas sobre o próprio parto. Logo, cabe ao Poder Legislativo municipal proporcionar melhores condições de natalidade para as mulheres, por meio da criação de uma lei que aumente o percentual mínimo da verba governamental que deve ser destinada à saúde. Ademais, esses recursos serão utilizados para a contratação de mais médicos e para criar um curso voltado para obstetras, no qual eles receberão aulas sobre os danos que um parto desumanizado pode causar na grávida. Espera-se, assim, melhorar as condições de atendimento no SUS e treinar profissionais para serem mais empáticos e respeitosos.