Desafios para promover o parto humanizado no Brasil
Enviada em 20/12/2020
A gestação e a industria do nascimento
O nascimento é, sem dúvidas, um momento de extrema importância, sendo percebido de modo diferente ao longo dos séculos e culturas. Com as modificações socioculturais e médico-científicas do século XX, tal evento se tornou cada vez mais institucionalizado e comercial, sobretudo no Brasil. Essa significativa mudança se mostra um dos principais desafios na promoção do parto humanizado no país, visto que, é possível considerar que ainda há uma cultura que favorece o parto mecanizado no país, o qual pode gerar consequências nefastas, tanto para as gestantes quanto para os bebês. Primordialmente, ressalta-se que o parto humanizado não se restringe à via de nascimento, mas sim engloba todo o processo, no qual há uma participação ativa da gestante. Embora o termo advir da década de 1980, quando ocorreu o “boom” das cesárias e diversas denúncias de violência obstétrica, ele ainda está amplamente associado com tal tipo de parto, mas não se restringe a ele. Com relação a cesária, o Brasil vai na contramão dos 15% indicados pela Organização Mundial de Saúde (OMS), possuindo mais da metade dos nascimentos por essa via, e atingindo os 80% na rede privada, de acordo com dados do Ministério da Saúde (2014).
Decerto, tais dados refletem que no país há uma cultura para a escolha do parto “industrializado”, que é fortemente influenciado pela errônea concepção de que a mulher não terá a “tão temida dor”. Contraditoriamente, a orientação do Conselho Federal de Medicina (CFM) é de que a cesariana seja a exceção, não a regra, pois o órgão alerta que há maiores riscos, já que se trata de uma cirurgia, podendo aumentar as chances de mortalidade, prejudicar o contato inicial entre puérpera e bebê, aumentar a incidência de problemas respiratórios na criança e até mesmo prejudicar a amamentação, ao passo que o há uma dificuldade na posição para dar o alimento ao recém-nascido, em virtude do pós-operatório.
Assim sendo, elucida a necessidade de que a cultura dos partos humanizados seja estabelecida, visando aproximar mãe e bebê nesse momento tão importante, para que não seja somente uma “indústria de partos”. Para tal o Ministério da Saúde deve levar informação a todas as gestantes, não somente a respeito do tipo de parto e os riscos da cesariana, mas também em como ocorre o processo humanizado da gestação e parto. Isso deve ocorrer por meio da ampliação nacional de grupos semanais de gestantes nas unidades básicas de saúde, com duração de aproximadamente 1 hora, tendo a participação multidisciplinar de profissionais da saúde, para que elas possam relatar as experiências pessoais e serem participantes ativas em toda a gestação.