Desafios para promover o parto humanizado no Brasil
Enviada em 01/10/2020
Na obra pré-modernista “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, do escritor Lima Barreto, o protagonista acredita fielmente que, se superados alguns obstáculos, o Brasil projetar-se-ia ao patamar de nação desenvolvida. Hodiernamente, é provável que o major Quaresma desejasse reduzir os entraves que impedem a promoção do parto humanizado no Brasil. Esse cenário perdura, principalmente, pela inobservância do Estado somada à postura conivente dos cidadãos já familiarizados com o problema.
A princípio, a Constituição Cidadã de 1988 garante vida digna de qualidade à todos os cidadãos, todavia, o Poder Executivo não efetiva esse direito. Consoante Aristóteles, no livro “Ética a Nicômaco”, a política serve para garantir a felicidade dos cidadãos, logo, verifica-se que esse conceito encontra-se deturpado no Brasil, à medida que o número de maternidades é insuficiente e, quando estas existem, geralmente são mal equipadas e apresentam equipes de atendimento pouco qualificadas. Nesse sentido, na teoria do Estado de Émile Durkhein, abrangem-se duas divisões: “normal e patológico”. Seguindo essa linha de pensamento, observa-se que um ambiente patológico, em crise, rompe com o seu desenvolvimento, visto que um sistema desigual não favorece o progresso coletivo, fazendo os direitos permanecerem no papel.
Outrossim, nota-se que aceitar a violência obstétrica é banalizar o mal. Segundo o Índice Integrado de Desenvolvimento Social (IIDS), lançado pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), 25% das gestantes já sofreram violência durante o trabalho de parto, tais como: cirurgia sem anestesia, banho frio e falta de alimentação. No entanto, médicos e enfermeiros não reconhecem o abuso de autoridade, de forma que, há uma desumanização da parturiente. Em razão disso, a precariedade que sustenta essa visão disseminada por ideias e hábitos culturais pode comprometer o entendimento da realidade em que o indivíduo está inserido, o que dificulta a conquista da cidadania plena. Porém, parte da sociedade tem aceitado esse quadro crítico sem questionar. Desse modo, a naturalização desse problema pode ser explicada a partir dos estudos da filósofa Hannah Arendt, visto que, devido a um processo de massificação, as pessoas estão perdendo a capacidade de discernir o certo do errado.
É imperioso, portanto, que medidas precisam ser tomadas para promover o parto humanizado. Para isso, o Ministério da Saúde deve aumentar a quantidade de maternidades, modernizando as existentes através de reformas e aquisição de equipamentos modernos, além de promover formação adequada aos profissionais relacionados, por meio de cursos e palestras-, com o fito de garantir que as gestantes e parturientes sejam tratadas com dignidade.