Desafios para promover o parto humanizado no Brasil
Enviada em 03/10/2020
O documentário “O Renascimento do Parto” exibido em 2013 pela Netflix narra as experiências das mães e dos profissionais de saúde no manejo e singularidade dos partos vaginais no Brasil, nação campeã no mundo em número de partos cirúrgicos. À proporção que o país vive o avolumamento das cesarianas em detrimento dos partos normais, crescem os desafios para promoção do nascimento humanizado no território nacional, substanciados pelos atos de negligencia e imprudência de uma parcela dos profissionais da área e pela estigmatização da cultura da dor no episódio.
Em primeiro plano, as ações inconsequentes dos responsáveis pelo trabalho de parto são vultuosas, posto que repercutem na saúde das parturientes. Desse modo, segundo as normativas da Resolução número 2144 de 2016 do Conselho Federal de Medicina, não cabe ao médico, por exemplo, promover ações que não sejam necessárias durante todo o processo de parir, como a realização do parto cesariano sem critérios clínicos definidos. Outrossim, os procedimentos praticados pelos profissionais devem ser isentos de agressão física ou moral contra a mãe ou o seu filho, à luz da boa prática humanizada.
Paralelamente, a reverberação coletiva do medo da dor durante o processo do nascimento de uma criança também se configura como um impedimento para o estabelecimento dos costumes abrandados. O sentimentos receosos da dor física e/ou emocional durante a experimentação do parto são comuns nas relações sociais das mulheres, fundamentados pelos relatos das vivências dos seus familiares ou amigos. Por conseguinte, tal situação provoca na gestante um processo de estigmatização da dor, ainda que não versada, tese explicada pelo filósofo grego Aristóteles ao dizer que o sábio procura a ausência de dor e não o prazer.
Portanto, ações do poder público são inescusáveis na atenuação da triste realidade nacional. O Ministério da Saúde, órgão garantidor das políticas de assistência à saúde no país, deve criar clinicas de parto humanizado coligadas com os hospitais federais em todo o território brasileiro, além de fomentar a adoção de hábitos respeitosos e humanizados pelos profissionais médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem envolvidos diretamente no amparo do parto, pós-parto e puerpério, com o fito de suavizar as experiências para as parturientes e deixá-las muito próximas dos sentimentos singulares presentes na relação mãe-filho no nascimento, como demonstrado subliminarmente no longa da Netflix.