Desafios para promover o parto humanizado no Brasil
Enviada em 17/10/2020
Segundo as tradições da mitologia grega, Apolo, deus da juventude e da luz, teria rasgado o ventre de sua própria esposa grávida, para evitar que seu filho, Asclépio, queimasse junto a ela e morresse ainda em seu corpo. Fora da ficção, é fato que o cenário obstétrico brasileiro assemelha-se ao de outrora: no país, as parturientes enfrentam grandes violações e o parto humanizado é uma realidade distante. Nesse sentido, cabe averiguar como a ausência de profissionais eticamente comprometidos com a saúde e a falta de informação interferem na problemática.
Em primeira análise, é cabível avaliar como a existência de profissionais descomprometidos com a saúde e o bem estar da mulher dificulta a humanização do parto no país. Consoante ao filósofo Tomás de Aquino, não se opor ao erro é o mesmo que aprova-lo. Tal lógica faz-se verídica no Brasil, uma vez que parte dos médicos nacionais não opõe-se ao ciclo mecânico dos nascimentos no país, mas o aceitam pois, embora o parto natural seja o mais recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a cesariana oferece uma maior comodidade e pode ser manipulada conforme as necessidade da agenda médica. Como consequência disso, os profissionais tornam-se complacentes com o erro, tal como visto por Aquino, e as mulheres são impossibilitadas de vivenciar uma experiência mais humanitária.
Somado a isso, a falta de informação sobre o parto normal é outra barreira no cenário de humanização da maternidade no Brasil. Isso porque, muitas mães desconhecem as vantagens que o processo natural do nascimento oferece. Nesse sentido, o documentário nacional “O Renascimento do Parto” exibiu a realidade de brasileiras que, sem qualquer auxílio e informação, optaram pela cesariana e sofreram traumas irreparáveis. Assim como no longa, inúmeras mulheres escolhem passar pela cirurgia precipitadamente por não terem acesso à informações seguras e reais sobre o parto natural, o que mistifica o processo e amedronta muitas gestantes. Tal fato tem como resultado a manutenção da mecanização do nascimento e o enfraquecimento do parto humanizado no país.
Isso posto, torna-se necessário um debate a nível nacional sobre o tema. É cabível ao Ministério da Saúde desenvolver medidas para sanar a problemática. Para isso, a criação de políticas que levem ao oferecimento obrigatório e de qualidade do parto humanizado, através da restrição legal da cesariana para casos específicos a fim de desestimular a prática excessiva no país é fundamental. Além disso, a divulgação de informações a respeito do tema, a fim de garantir a escolha consciente e livre para todas as gestantes é de extrema importância. Somente assim, será possível humanizar a maternidade e evitar que realidades como as da mitologia grega acometam o Brasil e as brasileiras.