Desafios para promover o parto humanizado no Brasil
Enviada em 18/10/2020
Informações disponibilizadas pelo Ministério da Saúde (2014) e pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (2015), mostram que o número de partos cesarianos no Brasil é assustadoramente maior (53,7%) que o recomendado pela Organização Mundial de Saúde (15%). Além disso, o site Despertar do Parto, evidencia que o parto humanizado na contemporaneidade é tratado como um produto, que poderia ser entregue pronto, desconsiderando as variáveis fisiológicas individuais de cada organismo. Essas informações nos fazem questionar, sobre os motivos pelos quais o Brasil é um país líder em cesáreas, além da generalização dos procedimentos que envolvem o parto e a interferência obstétrica neste evento.
Inegavelmente, o valor pago aos médicos obstetras pelo Sistema Único de Saúde - aproximadamente cem reais a mais para cesarianas - parece refletir diretamente na liderança do nosso país em relação ao número elevado deste tipo de parto. Assim, a conduta médica que desencoraja o parto normal e tenta moldar em um formato único o corpo humano e o evento do parto, acaba transformando este momento singular da reprodução humana em um produto. Segundo a série documental O renascimento do parto, este tipo de interferência pode ser considerada como violência obstétrica, já que dificulta a promoção do parto humanizado.
Ademais, questões como a falta de informações, também podem impedir que a mulher se prepare adequadamente para o parto, além de influenciar sua escolha. Muitas mães consideram a cesariana um parto mais fácil, por ter data e hora marcada, e ser realizado em um hospital ou maternidade. Além disso, o medo relacionado à dor e à imprevisibilidade do parto, acaba fazendo com que elas optem pelo procedimento cirúrgico, que oferece anestesia e monitoramento intensivo dos sinais vitais. Porém, este tipo de intervenção obstétrica, ao interferir no processo instintivo e natural que é o parto, pode acarretar consequências físicas, mentais e fisiológicas, muitas vezes irreversíveis, à mãe e ao neonato.
Desse modo, políticas de conscientização da população sobre saúde materna e neonatal, poderiam ser implementadas aos sistemas das Unidades Básicas de Saúde do Brasil, através de ações do Ministério da Saúde. Essas políticas poderiam priorizar a divulgação de informações relacionadas a importância da vivência integral da experiência do parto, tanto para a mãe quanto para o bebê, assim como as consequências da interferência obstétrica na saúde da mulher e na mortalidade neonatal. Bem como conscientizar sobre o real papel desta especialidade médica na saúde pública, que se aplica a casos raros (cerca de 15% dos nascimentos) o que poderia resultar na diminuição dos partos que sofrem esse tipo de interferência.