Desafios para promover o parto humanizado no Brasil
Enviada em 12/01/2021
Parafraseando a primeira lei newtoniana, um corpo não terá seu movimento alterado a menos que forças externas ajam sobre ele, sobressaindo sua inércia. Esse é o hodierno cenário dos desafios para promover o parto humanizado no Brasil: uma inércia que perdura em detrimento da mecanização social, além da ganância médica. Sendo assim, convém analisar os principais pilares dessa chaga social.
Vale ressaltar, a princípio, que preocupações associadas à excerbada automatização humana não apenas existem, como vêm crescendo diariamente. Ademais, como relatado pelo escritor austríaco Stefan Zweig, em sua obra “Brasil, o País do Futuro”, grandes mudanças tecnológicas e sociais seriam efetivadas na nação. Dessa forma, com o advento da internet e toda sua praticidade, atrelada à facilidade de programação - seja de horários ou compromissos -, a vida urbana se tornou cada vez mais alienada, distanciando-se da humanização e tornando eventos biológicos, como o parto, extremamente mecanizados com a adoção crescente às cesarianas. Ademais, tal panorama é reflexo de uma sociedade excessivamente controladora, o que promove a negligência perante ao parto natural, acarretando na acentuação progressiva do impasse.
Sob outro prisma, faz mister salientar que Brás Cubas, o defunto autor de Machado de Assis, alegou em suas “Memórias Póstumas” que não teve filhos e não transmitiu para criatura sequer o legado de nossa miséria. Possivelmente, hoje, ele perceberia quão certeira foi sua decisão: o hodierno quadro da ambição exagerada da classe médica é uma das faces mais lamentáveis do âmbito nacional. Outrossim, tal conjuntura é evidenciada no desinteresse dos profissionais para com o parto humanizado devido sua imprevisibilidade, corroborando no estímulo às gestantes à adoção de procedimentos cirúrgicos desnecessários, por estarem associados à rapidez e capacidade de planejamento. Com isso, os obstetras conseguem atender cada vez mais pacientes, tornando o parto um comércio, o que provoca a formação de um dilema social com dimensões cada vez maiores.
Destarte, forças externas devem tornar efetivas vencendo a inércia proposta por Newton. Sendo assim, o Ministério da Saúde, em parceria com a mídia, deve fomentar o interesse pelo parto humanizado, por intermédio de campanhas e debates televisivos - ministrados por médicos e enfermeiros - , para discorrer a respeito dos benefícios da concepção natural, a fim de promover a saúde das lactantes e lactentes. Também é necessário que o Governo Federal estabeleça medidas que imponha um número diário máximo de gestantes a serem atendidas por cada médico. Somente assim, construir-se-á um corpo social despreendido paradigmas errôneos, por como dito por Karl Marx: “as inquietudes são a locomotiva da nação”.