Desafios para promover o parto humanizado no Brasil

Enviada em 10/11/2020

Edificante da cinematografia contemporânea, a premiada trilogia “Matrix” deve grande parte de seu reconhecimento à pertinência de suas críticas sociais, apresentadas como metáforas. Na obra, toda a humanidade é mantida em cápsulas biônicas e usada, por robôs, como fonte de energia; essa situação representa a submissão das massas aos interesses do Capital, que tem, na hospitalização do parto, uma de suas manifestações. Essa prática tem causas sólidas e consequências graves, mas pode ser combatida por meio da difusão do parto humanizado.

Dentre essas causas, se destaca o processo de fetichização da mercadoria, descrito por Karl Marx. Ele observou, na Europa do século XVIII, que se praticava praticava a supervalorização monetária do custo dos produtos industrializados, de modo a favorecer o Capital industrial. Da mesma forma, no Brasil contemporâneo - país exemplar na lógica do lucro, por ser profundamente desigual -, muitas mães optam pela realização de cesáreas, procedimento indevidamente fetichizado por ocorrer de forma hospitalar, mas menos seguro e mais custoso do que o parto humanizado.

Esses fatores, inclusive, configuram as consequências do baixo alcance do procedimento menos invasivo: uma perda dupla. Isso porque a cesárea é um procedimento emergencial, custando 100 reais a mais do que sua alternativa humanizada e sendo indicada pela OMS para 15% das ocorrências -  40% a menos do que a realidade brasileira - por poder gerar problemas, como prematuridade, corte indevido e até morte. Desse modo, um Brasil de poucos partos humanizados perde dinheiro e saúde.

Nesse cenário, é necessária a mobilização das autoridades de saúde. Por meio de portaria, o Conselho Federal de Medicina compelirá os obstetras a exibirem uma cartilha às mães que pedirem por cesáreas, sob pena de suspensão do direito profissional. O documento, a ser elaborado por universidades públicas e custeado pelo órgão, apresentará informações positivas acerca do parto humanizado, bem como alertas contra demais procedimentos. Como consequência, o brasileiro gastará menos e viverá melhor, dando um passo para fora da cápsula biônica da fetichização.