Desafios para promover o parto humanizado no Brasil
Enviada em 24/11/2020
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a humanização do parto promove o nascimento saudável e respeita o processo biológico natural do ser humano. Todavia, no cenário brasileiro hodierno, tal perspectiva não é popularizada o suficiente, o que gera significativos desafios para o seu fomento. Tal situação é corroborada, sobretudo, pela escassez de informações acessíveis à população, além da frequente hierarquização das relações entre médicos e gestantes.
Em primeiro plano, é fundamental destacar o insuficiente conhecimento populacional a respeito do parto humanizado. Nesse viés, segundo dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a taxa de prematuridade brasileira já atinge 11,5% - quase duas vezes superior à observada nos países europeus. Diante disso, evidencia-se que o excesso de intervenções obstétricas, gerado, por exemplo, pelo agendamento incorreto de cesarianas, pode catalisar graves danos à saúde do recém-nascido, o que torna clara a gravidade da conjuntura. Dessa maneira, a banalização do parto cesáreo, em detrimento da dinâmica natural do corpo humano, permanece diretamente ligada à baixa popularização do nascimento humanizado que, necessariamente, possui raízes na escassez de políticas públicas informativas acerca do assunto.
Ademais, as relações entre médicos e gestantes são, frequentemente, hierarquizadas. Sob esse prisma, o filósofo Michel Foucault ressalta que o poder articula-se numa linguagem criadora de mecanismos de controle e coerção, os quais aumentam a subordinação. Nesse sentido, a escassez de alteridade, por parte do profissional obstetra, na relação com a gestante, retarda a promoção do parto humanizado no Brasil, pois a errônea noção de que o paciente constitui um sujeito passivo, submetido aos interesses médicos, limita o bem-estar da mulher no momento do nascimento da criança. Desse modo, é notório que o respeito à condição biológica natural e a priorização dos interesses maternos constituem fatores primordiais à humanização do parto.
Portanto, demonstra-se a relevância do debate acerca da problemática em questão. Logo, cabe ao Ministério da Saúde a divulgação - nos hospitais e em postos de saúde - de cartilhas informativas a respeito do parto humanizado, com o fito de reduzir o excesso de cesarianas e, por conseguinte, de partos prematuros. Tal medida deve ocorrer mediante parcerias público-privadas com instituições vinculadas à saúde pública - como a Fiocruz -, e deve expor os diversos fatores essenciais à humanização em pauta. Outrossim, cabe aos médicos a extinção das relações hierarquizadas com as gestantes para, finalmente, promover os elementos supracitados pela OMS.