Desafios para promover o parto humanizado no Brasil
Enviada em 27/11/2020
José Saramago, em seu romance “Ensaio sobre a cegueira”, caracteriza a banalização das difíceis realidades sociais frente o olhar da sociedade. A obra é permeada por uma profunda crítica social, e busca evidenciar que o ser humano é produto da realidade em que vive. Sob essa ótica, nota-se que, no Brasil, a temática do parto humanizado se configura como uma situação análoga à observada no livro, já que existem muitos desafios acerca de seu exercício, como a notável naturalização do grande número de cesarianas feitas no país, as quais muitas vezes sem necessidade. Logo, é fundamental analisar os reflexos desse contexto para o coletivo, bem como o papel educacional em sua mitigação.
A princípio, é válido pontuar que desde os processos denominados Revoluções Industriais e a ascensão ao capitalismo, o Brasil, mesmo que de maneira lenta, se modernizou, notadamente no que tange aos avanços da medicina. No entanto, apesar de todo desenvolvimento observado no tocante à saúde pública - e privada - do país, nota-se que a prática do parto humanizado nem sempre é uma realidade observada na vida de muitas gestantes. Prova disso é que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país líder no mundo no que se relaciona à prática de cesarianas. Isso acontece, predominantemente, pois há um grande contingente de mulheres canarinhas que não são informadas acerca dos benefícios do parto “natural”, além de não serem influenciadas ou apoiadas, a fim de se prepararem de maneira adequada e se tornarem as protagonistas no momento de parir.
Ademais, consoante o pensamento kantiano, o indivíduo só atinge a maioridade quando sintetiza a possibilidade de agir com sua própria razão. Não obstante, as universidades, bem como os hospitais de ensino, ao negligenciarem, muitas vezes, a temática do parto humanizado, acabam formando profissionais de saúde que não levam em consideração os desejos da mulher no tocante ao estilo de parto desejado, e escolhem alternativas mais fáceis, como a cesariana, o que as obriga a permanecer em estado de menoridade. Assim, nota-se que nem sempre as leis saem do papel, já que o artigo sexto da Constituição Federal de 1988 garante que a proteção à maternidade é um direito social, logo deve ser posto em prática. Vê-se, então, o perigo da norma apresentada findar em desuso.
Destarte, medidas são cruciais para reverter o estado de “cegueira” social observada no cenário discutido. Para tanto, o Estado, em parceria com o Ministério da educação, deve investir em palestras e projetos sociais acerca dos benefícios relacionados à prática do parto humanizado na vida da mulher, e consequentemente, do bebê. Isso deve ser feito por meio de um amplo apoio midiático, que deve incluir propagandas televisivas, entrevistas em jornais e debates entre os professores, a fim de reverter barreiras sobre esse tema e atingir um público maior.