Desafios para promover o parto humanizado no Brasil

Enviada em 07/12/2020

Na obra Memórias Póstumas de Brás Cubas a frase “Não tive filhos, não transmiti ao mundo o legado de nossa miséria”, é usada com o fim de explicar a sua escolha ao não deixar descendentes, objetivando livrar a vivência de um ser em um meio que desumaniza indivíduos. Nesse sentido, no Brasil a desigualdade e os déficits em políticas públicas em áreas como a saúde para a melhoria da vida social provocam o cenário no qual muitas famílias brasileiras fazem a mesma escolha de Brás Cubas, dado a falta de apoio e desumanização no tratamento às mulheres gestantes. Sob tal ótica, a problemática ganha fomento a partir da violação de direitos civis e do tabu social.

Em primeira análise, baseando-se na premissa a qual todo cidadão tem direitos, vale afirmar que este se aplica aos bebês durante a gestação e após o seu nascimento, cabendo ao Estado garantir seus direitos. Conforme Hobbes, a sociedade firmou um contrato social a fim de assegurar a sua saída do estado de natureza, visando a uma vivência mais harmônica. Assim, vale ressaltar a violação destes direitos previstos na Constituição de 1988, uma vez que mulheres grávidas enfrentam vários problema tais como o abandono do Estado que não lhe dispõe meios para um bom acompanhamento e nem recursos para auxiliar a gestante, tais como cesta básica. Por conseguinte, o parto e desenvoltura da criança se torna algo interligado a condição econômica da família, a qual se advir de um grupo marginalizado, enfrenta a desigualdade imposta pela sociedade, a qual viola os direitos constitucionais.

Além disso, é válido afirmar que a educação é um fator para a desumanização dos partos, dado que promove a falta de uma educação sexual adequada influenciando diretamente no aumento de situações de gravidez não desejada que poderá resultar em um aborto. No livro “Quarto de Despejo” de Carolina de Jesus, é retratado a situação de uma mulher analfabeta e a sua luta diária para garantir o sustento e a sobrevivência de sua família. Analogamente, as escolas, as quais tratam a educação sexual como um tabu, promovem situações como a de Carolina sejam cada vez mais recorrentes, haja vista que há o evidente despreparo dos jovens de origem acadêmica, financeira ou psicológica. Logo, há o aumento de buscas por clínicas ambulantes objetivando o aborto ou na criação defasada de uma criança.

Torna-se evidente, portanto, a necessidade de medidas para promover a humanização do parto. Urge ao Ministério da Cidadania em parceria com o Ministério da Saúde, a atuação com programas de apoio e acompanhamento às grávidas, com a supervisão de psicólogos durante a gestação e fornecimento nos hospitais de uma cesta básica e kit para o bebê. Além disso deverá ser imposto a obrigatoriedade de palestras de educação sexual nas escolas, dessa forma se promoverá a humanização do parto através conscientização e da cobrança dos direitos civis, evitando a miséria vivenciada por Brás Cubas.