Desafios para promover o parto humanizado no Brasil
Enviada em 11/03/2021
Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), o conceito de saúde vai além da mera ausência de doenças, visto que há outros fatores que necessitam ser levados em consideração, como o bem-estar físico, mental e social. Porém, no Brasil, esses princípios são negados, uma vez que a principal via de nascimento é a cesariana, intervenção cirúrgica, completamente, incisiva, que ignora a fisiologia e o protagonismo da mulher. Sob esse cenário, é notório que estamos cada vez mais longe da promoção do parto humanizado, visto que existem vários empecilhos, tais como a desumanização do atendimento médico, os quais não tratam as pacientes como um todo e a mercantilização do modelo de parto instrumentalizado, responsável por transformar a mulher em um subproduto de seu partejo.
Evidentemente, a intensa recorrência por intervenções cirúrgicas no momento do parto pode ser demarcada pela desumanização do atendimento médico, esse que, por sua análise fria e objetiva, examina pacientes em partes fragmentadas, não como um ser humano completo. Nesse sentido, cabe mencionar a obra “Segundo Sexo”, pertencente à autora Simone de Beauvoir, à qual explica que a recorrência dos médicos negarem a individualidade das mulheres e não valorizar o protagonismo delas, diz respeito à visão amórfica que eles possuem sobre elas, concentrada apenas em meros úteros que carregam bebês. Sob essa visão, é notório que a violação dos corpos femininos ao ato de parir ocorre justamente pela falta de empatia em reduzi-las de gestantes a um órgão com um bebê resguardado.
Além disso, a mercantilização do parto foi responsável por transferi-lo de evento fisiológico a uma cirurgia de porte médio, o qual possui o objetivo de isentar a mulher de seu papel principal e, automaticamente, delegar esse lugar ao médico. Nesse sentido, é válido ressaltar o documentário “Renascimento do Parto”, cuja obra possui a pretensão de criticar as nocividades dos mais diferentes métodos invasivos inseridos na indústria do nascimento, os quais possuem o caráter autoritário de tornar a gestante um subproduto e o bebê um produto do serviço contratado. Diante desse contexto, nota-se que, cada vez mais, essa comercialização se distancia da ideia de partejar e se configura em uma mera prestação de serviços entre contratante e contratado.
Portanto. Urge medidas necessárias para humanizar o atendimento médico, o que, automaticamente, implicaria na mudança de intervir aos partos. Por isso, cabe ao Ministério da saúde, criar cursos obrigatórios de capacitação técnica ao atendimento humanizado, ministradas por meio de associações civis que lutem por essa causa, por exemplo, a Rede pela Humanização do Parto e Nascimento (Rehuna), a qual seria responsável por lecionar esse estudo aos estudantes e profissionais da área. Assim, diante de maior conhecimento pela prática humanizada, venceremos esses obstáculos.