Desafios para promover o parto humanizado no Brasil

Enviada em 30/03/2021

“A noção de que a vida humana é sagrada apenas porque é humana é medieval”. Esta frase, do filósofo australiano Peter Singer, retrata um conflito cada vez mais discutido na atualidade: o evidente contraste entre a racionalidade e a animalidade do ser humano, evidenciado por questões relacionadas ao parto e à maternidade. Nesse contexto, a promoção do parto humanizado no Brasil é um desafio e persiste devido, não só à mercantilização da medicina – colocando em destaque um modelo industrial de saúde -, mas também à crescente impessoalidade nas relações humanas.

Em primeiro plano, evidencia-se que a comercialização da medicina é uma grande responsável pela complexidade do problema. Em 2015, de acordo com a Agência Nacional de Saúde Suplementar, médicos que realizavam partos por cesariana recebiam cerca de 50% a mais que os que procediam pelo método natural. Diante dessa perspectiva, a desumanização do parto floresce em virtude da supremacia de interesses financeiros, que acabam por ganhar grandes proporções. Assim, tem-se a objetificação de sujeitos e de práticas sociais como consequência, o que acaba por agravar o problema.

Além disso, de acordo com Eleonora de Morais, psicóloga brasileira, “a humanização do parto é um processo e não um produto que nos é entregue pronto”. Todavia, infelizmente, destaca-se a impessoalidade nas relações entre profissionais e pacientes sob o argumento de ser necessária uma maior eficiência na medicina. Dessa forma, gestantes não recebem um atendimento adequado e responsável, que abranja todas as suas necessidades físicas e psicológicas, acabando por colocar diversas de suas vontades num plano secundário durante todo o processo. Dessa maneira, torna-se explícito o desafio imposto pela liquidez das relações médico-pacientes na promoção de partos humanizados.

É evidente, portanto, que tais entraves sejam solucionados. Para que isso ocorra, é necessário que o Ministério da Saúde, em parceria com o Ministério da Educação, crie programas educacionais de humanização do parto em sua totalidade - ou seja, durante os períodos de pré-natal, nascimento e pós-parto -. Estes programas devem ser aplicados, cobrados e avaliados durante toda a grade curricular dos estudantes de cursos técnicos e superiores da área da saúde, capacitando os futuros profissionais a terem uma interação mais individualizada e humanitária, a fim de melhorar a qualidade do atendimento às pessoas gestantes, tornando-o cada vez mais responsável e colocando a saúde e desejos dos pacientes em primeiro lugar. A partir dessa ação, espera-se promover uma melhora no que tange à promoção da humanização dos partos no Brasil.