Desafios para promover o parto humanizado no Brasil
Enviada em 26/03/2021
No documentário “O renascimento do parto”, diversos especialistas discutem sobre a maneira como o parto é visto no cenário contemporâneo. As cenas em cesarianas, nas quais os bebês aparecem como meros pedaços de carne removidos das barrigas das mães, mostram a mecanização violenta de algo que, em séculos passados, costumava ocorrer de forma natural. O documentário dialoga com a realidade à medida em que mostra consequências da mercantilização da medicina e do modelo industrial de saúde atual. O efeito desse cenário é a perda do empoderamento da mulher enquanto protagonista no nascimento da vida.
Em primeiro lugar, é preciso reconhecer os impactos da mercantilização da área da saúde. De acordo com dados do Ministério da Saúde, 98,4% dos partos no Brasil são realizados em hospitais, os quais visualizam a mulher a partir de uma ótica financeira. Nesse sentido, não estranha que tantas unidades de saúde tenham, em sua gestão, administradores de empresas ao invés de médicos, ou que relatos de violência obstétrica – a qual não raro é cometida em nome da eficiência do parto – sejam tão frequentes. Para as clínicas, as ‘’pacientes’’, geradoras da vida, são, na verdade, ‘’clientes’’, consumidoras, de forma que o parto é, sobretudo, um produto. Assim, é possível afirmar que os aspectos econômicos da medicina contemporânea contribuem para a dissociação do parto de seu caráter humano e biológico.
Consequentemente, o que se observa é a secundarização do protagonismo da mulher no nascimento de seu filho. A mãe, nesse contexto, assim como apontado por Simone de Beauvoir, em ‘’O segundo sexo’’, é apenas uma ferramenta para o surgimento da vida, e, dessa forma, deve obedecer aos médicos e se comportar da maneira como desejam os médicos. Cabe, à mulher, o silenciamento, seja por meio dos anestésicos ou da própria violência obstétrica, e reserva-se, ao médico, a administração fisiológica de todo o parto. Dessa forma, pode-se concluir que a mercantilização da medicina – e, por extensão, do parto – descarta o protagonismo da mulher durante o parto.
É preciso, portanto, que o Estado tome providências, a fim de solucionar esse problema. Para que as mulheres tomem conhecimento de seus direitos, urge que o Ministério da Saúde divulgue-os, por meio das redes sociais, e que promova, aos profissionais da saúde, palestras sobre a importância do protagonismo materno no parto. Somente assim, com informação, será possível que as cenas violentas do documentário ‘’O Renascimento do Parto’’, as quais amedrontam tantas futuras mães, não mais se reproduzam na realidade.