Desafios para promover o parto humanizado no Brasil

Enviada em 04/10/2021

De acordo com o artigo 196 da Constituição Federal Brasileira (CF), de 1988, a saúde é um direito de todos e dever do Estado. Entretanto, o que se observa, atualmente, é o desrespeito a tal preceito do documento, uma vez que a violência obstétrica é uma questão de saúde pública que assola a vida de milhares de mulheres grávidas no país. Nesse sentido, a desumanização na medicina, somada à estrutura histórica patriarcalista, são fatores que dificultam a ascensão do parto humanizado no país.

Em primeira análise, cabe ressaltar que, apesar de importante, o avanço científico desencadeou o processo de desumanização na medicina. Consoante à jornalista Daniela Arbex, em sua obra “Holocausto Brasileiro”, mesmo com os avanços científicos, 60mil pacientes foram mortos no Manicômio de Barbacena, em 1960, devido aos atos desumanos de médicos e profissionais da saúde. Indubitavelmente, a violência obstétrica sofrida por muitas mulheres grávidas, devido a intervenções cirúrgicas desnecessárias, como, por exemplo as cesareanas, desconsidera a condição humana do indivíduo. Dessa forma, é inaceitável a permanência de tal violência, devido à atual desumanização da medicina, uma vez que se tem como alternativa o parto humanizado.

Além disso, a estrutura histórica pautada em uma visão patriarcalista reforça o desrespeito à autonomia da mulher sobre o seu próprio corpo. Segundo a feminista Ângela Davis, o lema “Meu corpo, minhas regras” tem ganhado cada vez mais força na sociedade contemporânea, promovendo, inclusive, a luta pelo parto humanizado, mas, ainda assim, enfrenta grandes resistências diante de uma sociedade atravessada por processos históricos complexos como o machismo. Incontestavelmente, a escolha feminina sobre a decisão de ter um parto humanizado é, majoritariamente, desconsiderada e o que prevalece é a narrativa que protagoniza o médico como o especialista que conduzirá o parto. Desse modo, é inadmissível que, em pleno século XXI, o corpo feminino ainda seja um objeto de tomada de decisões masculinas que, muitas vezes, violam a sua saúde da própria mulher.

Diante do exposto, é preciso que a realidade atual seja repensada. Cabe, portanto, ao Conselho Federal de Medicina se responsabilizar pela disseminação de informações acerca da importância do parto humanizado. Isso pode ser feito por meio da elaboração de campanhas nas mídias sociais que informem sobre a existência da violência obstétrica e a importância do empoderamento feminino, a fim de promover proteção e saúde às mulheres grávidas que desejem ter seus filhos de maneira natural. Tal medida contará com a ajuda de profissionais da área da saúde influentes no meio digital, como o Dr. Dráuzio Varela, além de feministas que defendam a pauta. Desta maneira, espera-se garantir o direito à saúde em sua integralidade a todos os cidadãos brasileiros, conforme assegurado na CF, de 1988.