Desafios para reduzir os casos de assédio sexual
Enviada em 02/08/2018
Na obra naturalista de Aluísio de Azevedo, O Cortiço, é relatado a trajetória de João Romão desde o momento em que herdou a taverna de seu patrão até a construção de seu vasto patrimônio, incluindo o cortiço. Não obstante, durante a narrativa é citado a relação de João com uma de suas empregadas, Bertoleza, que sofreu com seu assédio sexual durante anos. Contudo, apesar da obra passar-se durante o século XIX, a problemática do assédio sexual permaneceu intrínseca na realidade do corpo social brasileiro do século XXI, levando ao questionamento a respeito dos desafios para combatê-la. Decerto, é inegável a presença da questão na realidade do país e, devido a uma sociedade machista e sexista que torna a figura feminina um objeto, o combate tornou-se cada vez mais desafiante.
Mormente, o machismo brasileiro perpetuou ao longo das gerações, desde a colonização, trazendo consigo o problema abordado. Sob tal ótica, o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau afirma que a natureza fez o homem feliz e bom, mas a sociedade deprava-o e torna-o miserável. Ao analisar-se tal citação em conjunto com a teoria do Determinismo- o homem é fruto do meio, da raça e do momento histórico- é possível perceber que o ato machista tornou-se enraizado no pensamento social da nação tupiniquim, levando os mais jovens a seguirem tais preceitos e, com isso, perpetuar o ideal de que a mulher é inferior ao homem e aumentando ainda mais os casos de assédio sexual.
Outrossim, a figura feminina sofreu com a objetificação fomentando o pensamento de que a mulher é um objeto para o sexo masculino e, com isso, dificultando o combate ao assédio. Nesse ponto de vista, é evidenciado na obra de Azevedo o ideal de que as mulheres se tornaram objetos para os homens, como a personagem Bertoleza que, quando o patrão alcançou seus objetivos, a vendeu como escrava, comprovando tal pensamento. Dessa maneira, uma vez enraizado tais convicções no pensamento social brasileiro, o assédio sexual é, de certa forma, incentivado e, dessa forma, piora diversos dados, como a pesquisa do instituto Datafolha que demonstrou que no ano de 2017 quatro em cada dez brasileiras já sofreu assédio sexual, tais números representam 42% da população feminina.
Infere-se, portanto, que a problemática abordada é desafiante no Brasil devido a uma sociedade machista que considera o sexo feminino como objeto. Não obstante, cabe aos governos estaduais a criação de campanhas que, por meio de projetos em escolas primárias, públicas e privadas, promovam a desconstrução do pensamento machista desde a infância, para que tais ideais deixem de ser uma realidade do pensamento da sociedade brasileira. Além disso, cabe à mídia não retratar a figura feminina como objeto em novelas e propagandas. Com tais atos o assédio deixará, de forma gradativa e eficaz, de ser uma realidade para as mulheres brasileiras e casos como o de Bertoleza findarão.