Desafios para reduzir os casos de assédio sexual

Enviada em 08/08/2018

Na literatura romancista, a mulher foi idealizada sob uma perspectiva de docilidade e submissão à figura masculina, de modo que sua autonomia, na esfera individual, foi gradativamente reprimida. Ainda hoje, construções sociais e mercantis arraigadas perpetuam noções de objetificação feminina, contribuindo para a normalização de assédios. Assim, urge explicitar os âmbitos valorativos e culturais responsáveis por fomentar tal problemática, a fim de que, por meio de sua superação, seja possível alcançar respeito pleno à humanidade, sem distinções quanto ao sexo biológico manifestado.

Em primeiro lugar, convém analisar as configurações morais patriarcalistas que potencializam a prática em questão. Consoante a Simone de Beauvoir, em sua obra “Segundo sexo”, o arquétipo feminino é formulado com base em condicionamentos sociais profundos, os quais instigam os estereótipos de fragilidade e inconstância. Nesse ínterim, o reconhecimento da mulher como ser que necessita de intervenções alheias estabelece relações de posse inferiorizantes, frequentemente foco e início de um ciclo de abusos ostensivos.

Ademais, é importante destacar as interferências da mídia e do mercado no cenário em voga. De acordo com Theodor Adorno, a modernidade é condicionada por uma indústria cultural, caracterizada pela homogeneização popular e, consequentemente, pela potencialização de padrões. Com efeito, a mulher, vista como um dos principais produtos a serem estampados em propagandas e sexualizada em letras musicais, não foge a ditames desse nível. A persistência de imagens reificadas do “sexo frágil” é fator que, embora acentue disparidades, continua oferecendo lucros significativos à publicidade de massa.

Torna-se evidente, portanto, a necessidade de discutir com mais profundidade métodos eficazes para coibir abusos dessa natureza. Faz-se imperioso que escolas e universidades, instituições de inegável participação formadora, instituam, por intermédio de disciplinas como Antropologia, espaço para debates acerca do papel social da mulher contemporânea. Nesse sentido, além de aulas e aprofundamentos teóricos, cabe chamar à participação líderes de movimentos feministas, com o objetivo de oferecer explicação sobre as lutas travadas e instigar o empoderamento coletivo. Outrossim, é dever do Ministério Público conferir celeridade à punição dos crimes de assédio, realizando, para tanto, plantões de julgamentos que garantam o curso efetivo da lei. Dessarte, será tangível dissolver as concepções arcaicas que coisificam o sexo feminino, ainda reflexo da tradição romântica.