Desafios para reduzir os casos de assédio sexual
Enviada em 13/08/2018
O livro “O Cortiço”, do escritor Aluísio Azevedo, é um dos melhores retratos do Brasil do Segundo Reinado (final do século XIX). Ele narra, dentre outros personagens, a história de João Romão, dono de uma “venda”; na qual o assédio dos homens para com as mulheres, principalmente adolescentes, era visto como normal. Porém, essa prática abominável persiste hodiernamente e faz parte do cotidiano de muitas mulheres. Nesse âmbito, para reduzir os casos de assédio sexual é imprescindível vencer seus desafios, tais como a desconstrução machista histórica-cultural e a omissão de denúncia das vítimas.
Primeiramente, é relevante ressaltar que há um enraizamento machista no pensamento das pessoas. Isto ocorre porque, desde a antiguidade, a mulher foi objetificada e vista como inferior; somente com o tempo ela foi ganhando direitos sociais e políticos na luta pela igualdade. É notório que até as leis contribuíam com essa disparidade, visto que punia brandamente àqueles que abusavam de mulheres, inclusive o Código Penal Brasileiro revogou seu artigo 216, e o reformulou com uma prisão mais longa para o crime de assédio sexual. Dessa forma, muitos homens ainda vivem estagnados no primitivismo, e, contribuem para a persistência de uma cultura permissiva de assédio às mulheres.
Ademais, até o espaço público se tornou acessível aos agressores oportunistas, pois muitas vítimas se omitem por medo da reação deles. Segundo dados da Campanha Chega de Fiu Fiu, 85% das mulheres já tiveram seu corpo tocado sem permissão publicamente. Além disso, há também o sentimento de culpa e vergonha da abusada, pois muitas das vezes seus agressores são parentes e amigos próximos ou porque pensa ter chamado atenção. Desse modo, sem o sentimento de apoio, ajuda e compreensão da sociedade e família, muitos abusos continuarão ‘‘às cegas’’, as estatísticas manterão seu nível descomunal e a “cultura do estupro” não deixará de fazer parte da sociedade.
Entende-se, portanto, que há desafios na luta contra o assédio sexual, mas sua redução é possível com a ajuda mútua do corpo social. Faz-se necessário, então, que a família ensine desde cedo que ser tocado e tocar o corpo de alguém é errado e deve ser alarmado o quanto antes aos responsáveis, assim, as crianças se tornarão futuros adultos que respeitam os limites e direitos do outro e não se omitirão perante esse crime. Concomitante, a mídia em parceria com o Estado, deve promover campanhas nas redes sociais, canais abertos, e através de banners e cartazes, com o intuito de incentivar as abusadas de assédio a denunciar tal prática, além de promover suporte psicológico através de uma plataforma online. Com isto, o século XXI não será palco da encenação de vilões como ocorreu na venda do João Romão.