Desafios para reduzir os casos de assédio sexual

Enviada em 07/03/2019

Embriaguez cultural

A liberdade, segundo o filósofo Russeau em sua obra Discurso Sobre A Origem da Desigualdade, é como o consumo de alimento e vinho, fortalecendo aqueles que souberem utiliza-la, ao passo que enfraquece quem não possuir discernimento. Essa má utilização é evidenciada pelas violações diárias que vitimizam o sexo feminino. Assim, banalizou-se uma cultura hedionda, que culpabiliza as vítimas, objetifica a figura da mulher e da margem para que o sexo masculino seja visto com extrema desconfiança.

Esse delírio social é marcado por uma inversão seletiva de valores, a qual culpabiliza as vítimas e oferece respaldo aos infratores. Quando a ação criminosa é praticada contra uma cidadã, o caráter seletivo do paradoxo social entra em ação. Como consequência, os assédios sofridos pelas mulheres são encarados por parte da população como uma resposta natural à postura feminina, ou seja, direitos inalienáveis como a vida, ir e vir e liberdade são relativizados por julgamentos impertinentes.

Além do mecanismo social da cultura machista, há também um componente majoritariamente individual: a objetificação da mulher por uma parcela da sociedade. Fatores como incentivos familiares a promiscuidade do sexo masculino desde a infância e propagandas amplamente veiculadas que expõe a figura feminina como objeto de consumo, revelam algumas raízes culturais que corroboraram para a construção de uma perspectiva individual utilitária sobre o sexo feminino. Essa visão é sintetizada pelo artista James Rosenquist na pintura “Eu te amo com meu Ford”, que compara o consumo de um carro, um macarrão instantâneo, com uma moça.

Diante de tanta injustiça, é esperado que o sexo oposto seja visto como um nêmesis, entretanto o sexismo vai de encontro com algumas medidas de reversão que podem ser eficientes. Uma vez que os homens são responsáveis por perpetuar essa cultura deplorável, é preciso envolve-los cada vez mais em discussões e reflexões acerca dos abusos sofridos diariamente pelo gênero discriminado. Grupos em redes sociais podem desempenhar o papel fundamental de iniciar tais discussões. Dessa forma, deve-se extrapolar a perspectiva de gênero, levando a uma avaliação humanitária, onde o sexo feminino é visto como um semelhante, que possui sentimentos, necessidades e vontades independentes de qualquer estrutura cultural predeterminada. Assim, uma maior parcela da população fará uso consciente do alimento e do vinho propostos pela metáfora de Russeau.