Desafios para reduzir os casos de assédio sexual

Enviada em 11/09/2019

É possível, por intermédio da linguagem simples e coloquial do poema “No meio do caminho”, de Carlos Drummond de Andrade, fazer uma analogia a respeito do assédio sexual no Brasil. Sob tal análise, pode-se ligar a pedra, presente na obra drummondiana, à crescente repercussão e manifestação da problemática no cotidiano dos brasileiros. Ainda, constata-se que o revés está atrelado não somente à inoperância estatal, mas também a banalização da cultura do estupro.

Em primeira análise, pontua-se o desleixo governamental como precursor do agravamento da situação. No livro “Ética a Nicômaco”, Aristóteles, defende que a política serve para garantir o bem-estar dos cidadãos. Porém, o descaso das autoridades públicas em relação à aplicabilidade de penas aos indivíduos que perpetram a praxe criminosa fomenta a atual inadimplência do Estado em solucionar a mazela social. Porquanto, os dados da pesquisa realizada pela campanha “Chega de Fiu Fiu”, os quais revelam que 85% das mulheres entrevistadas já tiveram seu corpo assediado em espaços públicos, exemplificam o desdém político-administrativo. Dessa forma, verifica-se a necessidade de uma reformulação nos valores e nas ações políticosociais, a fim de que o axioma aristotélico retorne ao cerne dos princípios governamentais e os acontecimentos supracitados possam ser mitigados à população, sobretudo às mulheres.

Outrossim, a difusão da cultura do estupro contribui para a acentuação da problemática. Comumente, observa-se no meio publicitário e midiático a proliferação de textos e imagens centradas na sexualização e objetificação da mulher, tal realidade configura o agravante cenário da banalização da cultura do estupro no meio social. Ainda, os altos índices de desemprego que assolam o país criam, por sua vez o cenário perfeito para os patrões de má índole chantagearem sexualmente as mulheres em troca da permanência da mesma em sua empresa. Posto isso, medidas são necessárias para reverter esse quadro.

Logo, para que o triunfo sob o assédio sexual seja consumado, urge que o Ministério da Justiça, por meio dos recursos enviados pelo Estado, promova a implementação de delegacias especializadas no atendimento e investigação de violências cometidas à mulher, de modo a amenizar o tempo da busca e apreensão dos infratores da lei. Ademais, essa ação deverá ser posta em prática mediante a criação de ouvidorias onlines, com o fito de facilitar as denuncias e dar voz as mulheres silenciadas pelo medo. Ainda assim, parte da verba deverá ser direcionada à criação de campanhas publicitárias com o objetivo de desconstruir a cultura do estupro, que é tão presente no meio social brasileiro. Dessarte, a pedra drummondiana moderna poderá ser removida do caminho social.