Desafios para reduzir os casos de assédio sexual
Enviada em 03/10/2019
Jean-Paul Sartre afirma, em uma de suas teses, que não importa a forma como a violência é manifestada, ela sempre será uma derrota. De conformidade com o autor, a cultura do assédio no Brasil é uma derrota, tendo em vista o desenvolvimento cultural do país no decorrer dos anos. Isso se evidencia não só com a objetificação do corpo da mulher na sociedade, como também com o advento da internet - fato que propiciou a liberdade opinativa e o anonimato. Em suma, as raízes do assédio são históricas, embora as inovações tecnológicas tenham acentuado as ocorrências dele.
É primordial ressaltar que o sertanejo universitário configura-se um meio de inferiorizar e materializar o corpo da mulher, tendo em vista as letras que abordam adjetivos de forma ostensiva e maliciosa, como na música “minha ex” da dupla Fernando e Sorocaba, a qual ilustra as transformações que uma mulher passou pelo término do relacionamento e o autor as usa como comparativo para mostrar a versão anterior da mulher. Nesse sentido, torna-se ainda mais evidente a inferiorização da mulher, visto que as músicas são um meio de unir opiniões e expressar o gosto coletivo de grande parcela da população. Em síntese, a falta de criticidade com as letras das músicas, somada à liberdade poética dos autores fazem com que o estilo musical perpetue e acentue a cultura de assédio no país.
Cabe reconhecer, no entanto, que apesar de as redes sociais serem um ótimo instrumento interativo elas também propiciam a liberdade de expressão abusiva, tendo em vista o distanciamento dos comunicantes e o anonimato existente na rede. Com efeito, o uso de comentários e cantadas alheias que muitos homens destinam a perfis femininos são um tipo de assédio, como no caso de Vanessa Profili – jovem que superou a obesidade - após uma cirurgia bariátrica, recebeu inúmeros comentários maldosos e de cunho machista e preconceituoso. Fica claro, portanto, que a cultura do assédio no país perpassa as raízes históricas e se acentua com as tecnologias, sendo necessário, por isso, a existência de filtros virtuais e a perpetuação das campanhas, já existentes, contra o assédio. A cultura do assédio no país é crescente e deve ser amenizada. Desse modo, com o objetivo de combater a musicalidade ofensiva à figura feminina, urge que o Ministério da Cultura (MinC) crie uma secretaria específica para fiscalizar as letras de música, com o fim de punir os cantores que valem-se da licença poética para menosprezar as mulheres. Ademais, é imprescindível que a Safernet – empresa de segurança virtual – atue de forma efetiva não só na criação de campanhas midiáticas contra o assédio virtual, como também na fiscalização de comentários ofensivos, a fim de que o espaço interativo da internet seja livre e democrático a respeito da mulher e esta possa agir com liberdade e sem medo de ser assediada. Assim sendo, o Brasil não se tornará uma derrota na lógica de Sartre e, sim, um país livre da cultura do assédio e com os cidadãos aptos a gozarem da liberdade que lhes é de direito.