Desafios para reduzir os casos de assédio sexual

Enviada em 14/07/2020

A série brasileira “Coisa mais linda” narra a história de Lígia, moradora do Rio de Janeiro dos anos 1960 e vítima de violência doméstica. Seu marido, Augusto, é o responsável pelos abusos e chega a assassiná-la, não sofrendo, no entanto, qualquer pena jurídica, enquanto protegido pela habituação do crime. Embora trate-se de uma produção televisiva, a realidade desafiadora para a erradicação dos casos de importunei sexual não se limita às telas. Diante disso, depreende-se que esse estado caótico encontra como causas a reprodução da cultura do estupro e a naturalização dos casos, o que dificulta a ocorrência das denúncias.

Em primeira análise, percebe-se que o machismo reproduzido pela sociedade durante séculos compromete a redução dos casos de assédio sexual. Nesse sentido, no contexto bélico, uma das mais utilizadas estratégias para conquista de territórios foi o estupro em massa de mulheres da população a ser subordinada. Com isso, o indivíduo criava uma hierarquia, impunha poder sobre a figura feminina, rebaixando-a a um papel meramente reprodutor. Tal ideologia perpetua-se, ao ser analisado que, segundo pesquisa da Campanha “Chega de Fiu Fiu”, mais de 80% das brasileiras alegam já terem sofrido assédio físico ou verbal publicamente. Logo, verifica-se que o corpo feminino é objetificado pois o machismo e a cultura do estupro são apoiados por meio de falas e atitudes cotidianas.

Além disso, a denúncia é dificultado quando a vítima não é instruída a identificar a relação abusiva na qual está inserida. Assim, o crime não chega a ser denunciado e o abusador não é detido pela falsa normalização do contexto, visto que a maioria dos casos de assédio sexual ocorre entre membros da família e entre parceiros, o que leva situações a serem silenciadas ou sequer identificadas. A naturalização das ocorrências contribui para a manutenção de relações entremeadas por invasões de privacidade e agressões. É preciso, assim sendo, que mais mulheres compreendam a gravidade da violação de seus direitos e busquem as formas corretas para a acusação.

Portanto, infere-se que o estado de dificuldade para a redução dos episódios de assédio deve ser contornado. Desse modo, é preciso que ONGs promovam a socialização de homens em seus locais de convívio, com a introdução de um profissional não identificado, para o debate interativo de temas relacionados à desigualdade de gênero e suas implicações, para que, em uma situação descontraída, possam desconstruir preconceitos estruturais. Associado a isso, é necessário que a mídia realize maior divulgação de aplicativos para denúncia de abusos de maneira simplificada, como o SOS Mulher, além de disponibilizar ferramentas para a fácil identificação do crime, a fim de instruir a vítima de uma forma clara.