Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 03/11/2025

No filme “Uma noite de 12 anos”, um grupo de militantes políticos é encarcerado e torturado após manifestar uma opinião contrária ao regime autoritário. Na realidade brasileira, a crítica presente na obra manifesta-se nos dilemas da doação de órgãos, que é invisibilizada e silenciada. Isso ocorre devido à relativização social e à ineficiência estatal no que se refere ao tema.

Em primeira análise, observa-se a indiferença social como um agravante da problemática. Conforme a filósofa Hannah Arendt explica em sua teoria sobre a banalidade do mal, quando os indivíduos são continuamente expostos a circunstâncias extremas, eles tendem a vê-las como rotineiras, perdendo o senso de urgência. Sob essa ótica, é possível vincular o pensamento da estudiosa à configuração de invisibilidade da doação de órgãos, já que, por ser uma problemática pronfudamente enraizada no corpo civil, é tratada com normalidade, sem gerar mobilização comunitária em prol de mudança. Assim, nota-se como a passividade social perante a situação mencionada representa um obstáculo para a superação dos órgãos transplantados ilegalmente.

Ademais, a doação de órgãos não é percebida com valor de mercado. Isso porque não é uma atividade altamente lucrativa e produtiva do ponto de vista mercadológico, o que, segundo o filósofo Slavoj Zizek, são fatores valorizados nos dias atuais. Esse panorama se dá pela lógica capitalista que norteia as relações no mundo hoje, priorizando o lucro de indústrias e empresas em detrimento da solidariedade e do cuidado com as pessoas. Consequentemente, há a diminuição dos transplantes realizados voluntariamente, o que afeta a saúde brasileira.

Portanto, urge ao Ministério da Saúde, órgão responsável pela saúde e bem-estar social, conceder maior visibilidade à importância da doação de órgãos, por meio do apoio a programas que debatam o tema, de modo que promova suporte psicológico e recursos necessários. Tal ação objetiva assegurar seu reconhecimento como fator de mudança cultural e fortalecer sua presença em todas as áreas de atuação. Apenas assim, garantir-se-à que as situações vivenciadas pelos militantes políticos não condigam com a realidade dos transplantes brasileiros.