Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 28/07/2018

Durante mais de meio século, a partir de 1954, marco inicial, as ciências médicas deram passos largos na área do transplante de órgãos. Todavia, no mundo hodierno, o Brasil enfrenta demasiados atrasos quanto a esse campo, como aborda o livro ‘‘Doação de órgãos: O milagre da vida’’, trazendo depoimentos de pessoas, que passam ou já se situaram na conjuntura da necessidade de algum órgão. Nesse sentido, seja pela melhoria da infraestrutura hospitalar, seja pelo outorgamento da livre escolha no doar órgãos, será possível sanar o entrave que, hoje, tormenta cerca de 30 mil pessoas nesse país.

Primeiramente, é preciso que o esqueleto da doação, os hospitais, esteja em melhores condições para aguardar um maior número de transplantes. De acordo com Eduardo Leal, vice-coordenador do Serviço de Procura de Órgãos e Tecidos (Spot-HC), o Brasil não está preparado para viabilizar um sistema de transplante maior que o atual. Nesse viés, segundo o site ‘‘Correio24horas’’, os órgãos de uma menina de 19 anos, morta em acidente de carro, não puderam ser doados, pois os hospitais da região, que estava quando ocorrido o acidente, não possuíam os aparelhos precisos para a execução do procedimento. Desse modo, percebe-se que é necessário para o transplante, tanto os órgãos quanto um meio viável para que ocorra o processo.

Outrossim, o entrave na ausência de autonomia do ser, brasileiro, em relação ao procedimento da doação de órgãos, representa uma regressão temporal. Nessa perspectiva, a lei, em 1997, presumia que todo cidadão brasileiro era doador, porém uma reformulação, no ano de 2001, transferiu para os familiares a responsabilidade da doação. Dessa forma, o transplante não é opinado pela vontade do que vem a óbito, e sim da família, a qual muitas vezes não entende as razões da doação e, por motivos religiosos ou afetivos, acaba negando a ação. Análogo a frase ‘‘O tempo altera todas as coisas’’, de Ferdinand de Saussure, essa situação merece mudanças.

Destarte, com base nos preceitos apresentados, infere-se que é indubitavelmente imprescindível a alteração de ambos cenários. À vista disso, em primeiro plano, é indispensável que o Estado brasileiro, atuando pelo poder Executivo, promova uma maior porcentagem da renda do país na distribuição à saúde pública, essa última organizada pelo Ministério da Saúde, a fim de melhorar a estrutura hospitalar, para que casos, como o denunciado pelo site ‘‘Correio24horas’’, não se repitam. Em segundo plano, o poder Legislativo atuando junto ao Judiciário deve organizar uma emenda constitucional, na qual, todo cidadão tem a liberdade de decidir, se quer ou não, ser doador, no intuito de dar ao brasileiro voz e espaço, algo que, nesse quesito, na atualidade não possui. Por fim, é por esses meios, que as milhares de pessoas que estão à espera de órgãos terão uma luz no fim do túnel.