Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 02/08/2018

Difundida popularmente, a lenda " O ladrão de rins " explora e incita uma dimensão lúgubre quanto a doação de órgãos. No Brasil contemporâneo, os dilemas de tal concessão persistem em minimizar a perspectiva de vida da população necessitada do recurso de transplantes urgentes. Nessa conjuntura, é pertinente averiguar como a falta de empatia e de solidariedade interpessoal e o tráfico de órgãos corroboram tal problema.

Com efeito, a crescente fila de pacientes à espera de uma transplantação denuncia a realidade da saúde brasileira ao expor o pensamento apático da maioria das famílias dos doadores acerca da utilidade de um órgão pós-morte. Paralelamente, segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 40% dos familiares rejeitam a possibilidade de doação, após defunção encefálica. Nesse contexto, essa recusa dá-se em razão do descrédito dado ao serviço público quanto às certezas do óbito e da ausência do sentimento de bem coletivo.

Ademais, vale ressaltar a prática de transplantes clandestinos como produto do tráfico de órgãos, transformando, assim, o fim humanitário da doação, em uma finalidade lucrativa. Dessa forma, tal ato é responsável pela destituição do conceito de humanização, idealizado por Bauman, além de não promover o bem social. Logo, o pensamento do filósofo comunica-se com a problemática, porquanto a fluidez dos laços interpessoais e a falta de solidariedade com o próximo prevalecem.

Destarte, medidas são necessárias para mitigar o impasse. Portanto, cabe ao Estado investir na saúde pública, de forma a diminuir o descrédito de tal instituição, além de promover campanhas e palestras, aliado às escolas, nas comunidades, informando, sobretudo, aqueles com impassibilidade acerca do ato solidário, incitando a humanização e construindo potenciais doadores. Outrossim, a ação estatal deve intensificar leis e punir, com caráter educativo, os traficantes de órgãos, por meio de um eficiente policiamento, combatendo, assim, a apatia social.