Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 08/08/2018

“O importante não é viver, mas viver bem”. Segundo Platão, a qualidade de vida tem tamanha importância de modo que ultrapassa o da própria existência. Entretanto, no Brasil, essa não é uma realidade para os indivíduos que estão na fila de espera por um órgão. Com isso, ao invés de agir para tentar aproximar a realidade descrita por Platão da vivenciada por estas pessoas, a família e a falta de empatia da pós-modernidade acabam contribuindo com a situação atual.

Segunda dados da Organização Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), hodiernamente, no Brasil, de cada cem famílias, quarenta e três recusam fazer a doação. Isso porque a doação de órgãos no país é consentida, ou seja, o corpo do indivíduo morto pertence aos familiares, assim, cabe a eles a decisão da doação. Em decorrência disso, há um fator que prova dificuldades na escolha da família sobre a doação de partes do seu ente querido: a falta de informação. Por conseguinte, os familiares por estarem em condições de luto e, não terem conhecimento a respeito da morte encefálica, que é decretada por meio de exames, recusam-se a submeter o individuo morto a este processo. Dessa forma, fatores família acabam contribuindo para o distanciado da realidade descrita por Platão da vivenciada por indivíduos que estão na espera por um transplante.

Ademais, a fluidez dos tempos pós-modernos como caracterizou Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, contribui para esta problemática. Isso decorre do egocentrismo e individualismo, comuns nessa pós-modernidade, que gera uma falta de empatia pelo próximo. Assim, acarretando em uma sociedade egoísta e individualista, que não reflete e nem ao menos se importa com as pessoas que necessitam de um transplante de órgão. Não é à toa, então, que de acordo com a Associação Brasileira de Doação de Órgãos e tecidos, quase 33 mil brasileiros estão na fila de espera por uma doação.

Torna-se evidente, portanto, a necessidade de medidas que aproximem estas duas realidades. Logo, seria interessante que o próprio individuo declare o interesse em se tornar doador, conversando com sua família, a fim de, posteriormente, facilitar a decisão familiar. Outrossim, seria importante que o Ministério da Saúde, em parceria com a mídia, dissemine, em canais abertos, campanhas sobre a doação de órgãos visando maior visibilidade desta ação com intuito de aumentar o número de pessoas interessadas a serem possíveis doadores, diminuindo assim o tempo na lista de espera. Desse modo, a realidade das pessoas à espera por um órgão será aproximada da realidade descrita por Platão.