Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 08/08/2018

O Brasil possui o maior sistema público de transplantes no mundo. Entretanto, apesar desse fato, o número de doações de órgãos no território é baixo se comparado à Espanha, país que possui os melhores índices de transplantação, alcançando 40 pessoas por milhão. Tal cenário brasileiro é preocupante por tratar-se de uma questão de saúde e demonstra que existem dilemas a serem superados a respeito do assunto.

Em primeira análise, um dos principais impasses ao aumento do número de transplantes de órgãos é a ausência de um fato social. De acordo com o sociólogo Émile Durkheim, um fato social corresponde a uma coisa que atua de forma coercitiva sobre um indivíduo e este, por sua vez, age de acordo com isso. No caso da transplantação no Brasil, não existe um fator que funcione como fato social, como por exemplo uma herança cultural que se imponha e exerça papel de coerção. Portanto, a população brasileira não possui o hábito de realizar tais doações e por esse motivo o país alcança índices próximos a somente 15 pessoas por milhão.

Da mesma maneira que o fato social, também possui relevância a falta de informações a respeito da doação de órgãos. Segundo Michel Foucault, as escolas atuam como instituições de sequestro, funcionando como instrumento de dominação e disciplina ao invés de fornecedora do conhecimento. Com isso, as instituições de ensino não fornecem dados suficientes aos seus alunos relativos a questões que envolvem a transplantação, como por exemplo sobre a morte cerebral. Esse fator constitui-se em um impasse na medida em que criam-se diversos mitos acerca do assunto, que não podem ser atestados pelos indivíduos e acabam por preponderar em suas decisões.

Por constituir-se em um cenário preocupante, é necessário que medidas sejam tomadas. O Governo Federal, em conjunto ao Ministério da Saúde e o Ministério da Educação, deve promover campanhas de conscientização, através dos meios midiáticos e nas escolas, de forma a derrubar determinados mitos sobre a transplantação e fornecer as informações necessárias à população. Dessa maneira, o processo será esclarecido e um fator que atue como fato social pode surgir no futuro, como por exemplo o surgimento de uma herança cultural de doação de órgãos.