Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 09/08/2018

“O importante não é viver, mas viver bem. Segundo Platão, a qualidade de vida tem tamanha importância de modo que ultrapassa o da própria existência. Entretanto, no Brasil, essa não é uma realidade para pacientes à espera por um transplante que, diante da falta de doadores efetivos, apenas vivem, não necessariamente bem. Com isso, ao invés de agir para tentar aproximar a realidade descrita por Platão da vivenciada por estas pessoas, a família e a falta de empatia da pós-modernidade acabam contribuindo com a situação atual.

Segundo dados da Organização Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), hodiernamente, no Brasil, de cada cem famílias, quarenta e três recusam fazer a doação. Isso porque, a doação de órgãos no país é consentida, ou seja, o corpo do individuo morto pertence aos familiares, assim, cabe a eles a decisão da doação. Em decorrência disso, há um fator que provoca dificuldades na escolha da família sobre a doação de partes de seu ente querido: a falta de informação. Por conseguinte, os familiares por estarem em condições de luto e, não terem conhecimento a respeito da morte encefálica, que é decretada por meio de exames, recusam-se a submeter o individuo morto a este processo. Dessa forma, fatores familiares acabam contribuindo para o distanciamento da realidade descrita por Platão da vivenciada por indivíduos que estão à espera por um órgão.

Ademais, a fluidez dos tempos pós-modernos como caracterizou Zygmunt Bauman, sociólogo polonês, contribui para essa problemática. Isso decorre do egocentrismo e individualismo, comuns nessa pós-modernidade, que gera uma falta de empatia pelo próximo. Assim, acarretando em uma sociedade egoísta e individualista, que não reflete e nem ao menos se importa com as pessoas que necessitam de um transplante de órgão. Por consequência disso, então, que de acordo com a Associação Brasileira de Doação de Órgãos e tecidos, quase 33 mil brasileiros estão na fila de espera por uma doação.

Torna-se evidente, portanto, a necessidade de uma tomada de medidas que aproximem estas duas realidades. Em razão disso, o Ministério da Saúde deve disseminar, nos meios de comunicação, propagandas que, além de incentivar a doação de órgãos, informem à população como, de fato, ocorre o processo da transplantação. Ademais, o Ministério da Educação, em parceria com as escolas, deve incluir a disciplina ética e cidadania no currículo escolar dos ensinos infantil, fundamental e médio. Essas aulas, com o intuito de desconstruir o individualismo já enraizado na sociedade pós-moderna, deverão disseminar o hábito de empatia. Dessa forma, os indivíduos à espera por um transplante no Brasil não apenas viverão, mas viverão bem.