Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 15/08/2018
Consoante o sociólogo Durkheim, a solidariedade orgânica, característica das sociedades complexas, é a capacidade de todos os indivíduos, apesar das diferenças, atuarem de forma consciente em prol da coletividade. Nesse caso, tal pensamento pode ser aplicado de maneira análoga à doação de órgãos, já que os doadores e a família agem em benefício de outrem. No entanto, apesar do Brasil possuir um amplo sistema para a realização de transplantes, a recusa feita por quase metade das famílias ainda é um empecilho. Desta feita, haja vista a indubitável importância da doação de órgãos, é necessário que a prática seja desenvolvida e valorizada.
Dessarte, o principal dilema enfrentado é a falta de doadores devido a rejeição familiar. Além de justificada emotivamente, a recusa está ligada à preocupação com a aparência do corpo após a retirada dos órgãos. Essa apreensão advém da tradicional prática de velar o cadáver, transmitida desde a Pré-História. Por isso, é dever da equipe médica informar à família que a fisionomia do doador será a mesma, bem como ajudar psicologicamente os parentes. Porém, devido principalmente a falta de preparo das equipes, essas ações raramente acontecem, o que afasta ainda mais os familiares da doação.
Apesar dos problemas apresentados, o Brasil é destaque em transplantes, já que 95% dos casos são financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Outrossim, o SUS é responsável por organizar a lista de espera, analisando fatores como localização, compatibilidade e tempo na fila. Diferentemente dessa realidade, países como Índia e China adotam o pensamento de Maquiavel de que os fins justificam os meios, tornando-se comum o tráfico ilegal de órgãos. Mesmo com essa discrepância, não há a valorização do sistema brasileiro, o que impede o seu completo desenvolvimento porquanto não recebe apoio dos próprios brasileiros.
Portanto, para que as famílias se tornem mais adeptas à doação, é necessário que profissionais da saúde, como médicos e enfermeiros, apresentem preparo para lidar com os parentes. Para isso, é preciso que o Ministério da Saúde e o Ministério da Educação forneçam palestras a fim de que esses especialistas passem a entender o doador como familiar e não apenas como paciente, o que corrobora para um maior diálogo com os entes. Por fim, é preciso que a população valorize o SUS, o que contribuirá para a melhoria do mesmo. Isso pode ser feito a partir do estímulo do Governo para a realização de campanhas midiáticas que mostrem os avanços desse sistema. Só assim conseguir-se-á estabelecer efetivamente a solidariedade orgânica preconizada por Durkheim.