Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 19/08/2018
A doação de órgãos é um tópico delicado na saúde de um país, pois contrapõe vida e morte. Nessa perspectiva, o Brasil é referência e possui o maior programa público de transplantes de órgãos do mundo. Apesar disso, o país realiza menos procedimentos do que poderia, uma vez que as equipes estão centralizadas em algumas regiões e a desinformação das famílias dos potenciais doadores contribui para um aproveitamento de órgãos aquém do possível. De início, cabe ressaltar que os hospitais com equipes habilitadas para a identificação de possíveis doadores e realização de transplantes estão concentrados nas Regiões Sul e Sudeste do país. Anteriormente, apenas neurologistas possuíam autorização para notificar a morte encefálica, a única condição que permite a doação de órgãos, e as dimensões continentais do Brasil dificultavam o pleno transporte dos órgãos dentro de seu prazo de viabilidade. Entretanto, com decretos assinados pelo presidente Michel Temer em 2016 e 2017, a Força Aérea Brasileira (FAB) passou a auxiliar no translado dos órgãos, além de que médicos de diversas especialidades receberam treinamento adequado e foram qualificados para atestar a morte cerebral nos pacientes. Com isso, segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o número de transplantes realizados cresceu 14% em 2017. Entretanto, muitas famílias ainda desconhecem os procedimentos e ações necessárias para a doação de órgãos e têm muitas dúvidas, o que refreia o pleno usufruto dos avanços conquistados. Frequentemente, familiares não sabem que seus entes queridos desejam doar órgãos e têm contato com essa questão, pela primeira vez, enquanto vivenciam o luto, o que gera incertezas, sobretudo em relação ao funcionamento das filas de transplantes, tráfico de órgãos e respeito ao finado. O Brasil possui a legislação mais severa do mundo para a confirmação da morte encefálica e o cumprimento da fila dos transplantes é rigorosamente assegurado pelos profissionais de saúde e familiares dos receptores de órgãos. Não obstante, há grande dificuldade em transmitir todas essas informações, pois são muito técnicas e, por desconhecê-las, muitos familiares recusam a doação e órgãos viáveis são desnecessariamente descartados. Em vista disso, é vital que as informações referentes a todo o processo de doação de órgãos sejam comunicadas com eficácia a toda a sociedade brasileira. É preciso que o Governo Federal, em parceria com o Ministério da Saúde, a ABTO e a mídia, formule uma campanha para o esclarecimento e conscientização sobre essa questão. Essa deve ser amplamente veiculada por meio de comerciais na televisão e internet, bem como pela elaboração e distribuição de uma cartilha explicativa em todas as unidades de saúde. Dados sobre a importância da doação de órgãos, condições em que essa é possível e funcionamento das filas de transplantes são conteúdos basilares na campanha e devem ser transmitidos de maneira simples e acessível, a fim de que haja o esclarecimento da população e que, dessa forma, os transplantes no Brasil continuem crescendo.