Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 23/08/2018

“Creio no direito à solidariedade e no dever de ser solidário”, disse o escritor português José Saramago. No entanto, a sociedade brasileira vem a falhar com esse dever ao longo dos anos. Tal ato é evidenciado no momento em que muitos brasileiros se recusam à proposta da doação de órgãos. No Brasil, mais de 35 mil pessoas estão na fila de espera por um transplante de órgãos. Dados divulgados pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), evidenciam que, as doações de órgãos no país não são suficientes para suprir a grande demanda de pacientes que estão a espera de uma doação. Essa realidade, porém, pode ser mudada com a conscientização.

A doação de órgãos requer uma série de passos, desde a confirmação completa de seus responsáveis, até exames padronizados. Porém, muitas famílias desconhecem o processo e acabam por negar tal procedimento, o que constitui o maior empecilho para tal. De acordo com o Ministério da Saúde, a taxa de negativa dos parentes à doação de órgãos é de 40%, e a fila de espera é estimada a duração de cinco anos. Por consequência, a conquista de respostas positivas dos familiares torna-se o maior objetivo para a concretização de uma melhoria no número de transplantes, pois, segundo a legislação o processo da doação de órgãos só se inicia após a autorização dos familiares do doador.

Entretanto, a ausência de uma abordagem mais “humanizada” e sensibilizada, por muitas vezes acaba diminuindo ainda mais as chances da família autorizar a doação. Ademais, a falta de informações e esclarecimento, também se torna uma barreira a ser vencida, uma vez que, inegavelmente quanto mais os familiares entendem mais se posicionam a favor. Como resultado desses agravantes, as famílias terminam por mistificar o processo de doação de órgãos, acabando por não autorizar as possíveis doações, e enterrar ou cremar seu ente querido, e com ele, as esperanças de milhares de vidas a serem salvas.

Portanto, é de necessidade nacional que esse quadro seja revertido. Para isso, é preciso que o governo facilite esse processo, alterando a lei que define que, mesmo se for da vontade do doador, a doação só pode ser realizada após a autorização da família. É necessário uma humanização por parte das equipes responsáveis pelo processo de solicitação aos familiares dos possíveis doadores, criando uma assistência psicológica que apresente um viés mais sensível sobre a perda, para criar uma atmosfera mais confortável para discussão dos pontos positivos da doação, e assim, abrir um caminho para a esperança no momento da perda.