Dilemas da doação de órgãos
Enviada em 23/08/2018
Segundo o escritor Franz Kafka, a solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana. É justamente esse sentimento de solidarizar-se que permite ao ser humano doar e consentir a doação de órgãos de seus familiares. No entanto, apesar dos avanços, o número de doadores ainda é insuficiente frente às longas listas de pacientes que necessitam de transplante no Brasil. Isso decorre, principalmente, da recusa de familiares em autorizar a retirada de órgãos nos momentos pós-morte e da falta de empenho do Estado em promover a conscientização efetiva da população sobre o tema.
Em primeira análise, observa-se que ainda há resistência por parte dos familiares em permitir a doação dos órgãos dos entes queridos após o diagnóstico de morte encefálica. Essa resistência, de acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), está muito associada a fatores religiosos e ao desconhecimento acerca do significado de morte cerebral e ao desejo de doação do paciente quando em vida. Desse modo, os índices de doação crescem lentamente, enquanto milhares de pessoas ainda morrem enquanto esperam por um órgão. Em função disso, caso nada seja feito, esse cenário permanecerá como um bloqueio para a doação de órgãos no Brasil.
Outrossim, a ausência de programas governamentais que promovam a conscientização sobre o processo e a importância da doação, dificultam a adesão da sociedade brasileira ao tema. Pois, como disse o escritor Gilberto Dimenstein, só existe opção quando há informação. Ademais, o assunto morte ainda é considerado tabu nas rodas de conversa, visto que representa um momento de futuro sofrimento. Assim, as decisões sobre retirada de órgãos acabam sendo tomadas em momentos de fragilidade extrema e sem discussões prévias, provocando muitas vezes posicionamentos equivocados. Torna-se evidente, portanto, que a falta de engajamento da sociedade e a ineficiência do poder público, contribuem para relutância no tocante à doação de órgãos no Brasil. Nesse sentido, é fundamental que as famílias dialoguem sobre a possibilidade de doação, expondo suas vontades de maneira verbal ou escrita, para que sirva de suporte à possíveis futuras decisões. Além disso, o Governo Federal, através dos Ministérios da Educação e da Saúde, deve promover um programa nacional de incentivo à doação de órgãos, a fim de informar quanto aos aspectos e procedimentos relacionados a essa prática. Dessa forma, poder-se-á transformar o Brasil em um país desenvolvido socialmente, regido pelo respeito à dignidade humana vislumbrada por Kafka.