Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 03/09/2018

Sísifos x Zeus

Na mitologia grega, Sísifo foi condenado por Zeus a rolar uma enorme pedra morro acima eternamente. Todos os dias, Sísifo atingia o topo do rochedo, contudo era vencido pela exaustão, assim a pedra retomava à base. Hodiernamente, esse mito assemelha-se à luta cotidiana de brasileiros que estão na fila de espera para doação de órgãos. Nesse sentido, o demorado processo para receber um transplante ocorre, principalmente, devido à desinformação familiar, “ filha” da lenta mudança de mentalidade social que ainda persiste no Brasil.

Tomando como norte a percepção do sociólogo Eduardo Galeano de que para modificar a realidade é preciso conhecê-la, é notável o crescente número de brasileiros que aguardam um transplante oferecido pelo SUS. Essa ideia pode ser claramente ilustrada através de um estudo feito pela ABTO (Associação de Transplante de Órgãos) o qual aponta que, entre 2015-2017, os índices de indivíduos que necessitam de um novo órgão aumentaram, em média, de 30%. Dessa forma, infere-se que esses crescentes índices de gentes que necessitam de um transplante simbolizam uma pedra no caminho à efetivação da saúde plena.

Conforme o príncipe de Exupéry, andar para frente não é sinônimo de evoluir, sendo assim, no dinamismo do século XXI, apesar do aumento nos números de doações, o Brasil ainda está abaixo do esperado. Assimilando essa vertente, uma das maiores barreiras que impedem o andamento rápido das filas de transplantes são as famílias de indivíduos que recusam a doação de órgãos depois da morte constatada desses. Para ilustrar tal situação, o Ministério da saúde apontou que a taxa de recusa de doação de órgãos por parentes é de 43%, e a média mundial em torno de 25%.

Para Milton Santos, Geógrafo brasileiro, os futuros são muitos e são produzidos com armas do presente. Pautado nessa égide, uma abordagem holística é condição “ sine qua non” a uma ação em prol do bem daqueles que aguardam um transplante. Para isso, três serão os protagonistas. O Estado, mediante o seu poder abarcativo, por meio do Ministério da saúde, precisa empenhar-se com investimentos em medicamentos imunossupressores, o qual são usados para evitar a rejeição do órgão transplantado. Além disso, a conscientização da sociedade no que tange doar os órgãos, deve ser iniciada nas escolas, o centro ideal de formação integral dos jovens, incluindo o exercício da cidadania. Às famílias, cabe autorizar a doação de órgãos do seu familiar, fator sem o qual os transplantes de falecidos não aconteceriam. Desse modo, a realidade distanciar-se-á do mito grego e os Sísifos brasileiros vencerão o desafio de Zeus.