Dilemas da doação de órgãos

Enviada em 28/09/2018

Immanuel Kant, em sua obra “A Crítica da Razão Prática” define como “imperativo categórico” toda ação ética que pode ser universalizada, ou seja, feita sem prejudicar o outro. A partir disso, muito se discute acerca dos dilemas da doação de órgãos no Brasil, conduta que muitas vezes é evitada por parte da população, além de estar sujeita a uma política pública ineficaz de transporte e infraestrutura, fato que contribui no crescimento da fila de espera por órgãos disponíveis.

Em uma primeira análise, cabe observar que, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, o número de doadores de órgãos cresceu cerca de 15% entre 2016 e 2017. No entanto, ainda que tenha tido um relativo aumento de pessoas dispostas a contribuir, o número total de doadores permanece baixo, principalmente devido a falta de comprometimento do Governo em veicular informações detalhadas sobre o processo de doação. Nesse sentido, muitas famílias, por não possuírem esclarecimento sobre o assunto, acabam conservando o sentimento do medo frente a decisão de doar, fazendo com que aqueles que necessitam de ajuda tenham sua situação prorrogada.

Além disso, mostra-se evidente que a atual conjuntura na qual o Sistema Único de Saúde (SUS) está inserido é alarmante. Tendo em vista que aproximadamente 95% dos transplantes de órgãos feitos no Brasil dependem exclusivamente da infraestrutura da saúde pública, o deslocamento rápido de órgãos do doador até aqueles que vão recebê-los torna-se um verdadeiro desafio, o qual muitas vezes acaba por não ser cumprido. Sob essa perspectiva, nota-se que o principal dilema encontrado nas doações de órgãos no país é que embora haja doadores, parte das doações não são realizadas devido ao sistema precário de saúde pública.

Diante dos fatos supracitados, faz-se necessário que o Governo realize amplas modificações nas atuais propagandas de doação de órgãos, adicionando informações detalhadas sobre o processo, além de criar uma área no site do Ministério da Saúde específica para a disponibilização mensal de dados sobre a quantidade de pessoas na lista de espera por doações, conscientizando, assim, parte da população sobre a importância de doar órgãos e ajudar o próximo. Ademais, é imprescindível que o Legislativo crie uma lei que defina o valor mínimo da renda pública a ser investido pelo Governo em saúde, estando este, em caso contrário, sob pena de multa. Desta forma, ações éticas poderão ser universalizadas e haverá, portanto, a democratização do acesso a saúde no Brasil.